sexta-feira, agosto 24, 2007

Domingo XXI - A porta estreita

A porta estreita (Lc 13, 22-30)
Lucas, quando coloca na boca do homem a pergunta “Senhor, são poucos os que se salvam?”, não pensa numa salvação no mais além, mas numa salvação já presente, que se realiza na história, e que consiste na aceitação e seguimento de Cristo. Lucas não fala tanto de “salvação” quanto de “história de salvação”.
Os textos neo-testamentários referentes ao tema da salvação mostram-nos uma frequente e curiosa associação entre “salvação” e “caminho”. Principalmente no Evangelho de Lucas e nos Actos dos apóstolos. Não é pura coincidência. Este “caminhar” em direcção a Jesus é integrar-se na história da salvação.
Não só se relaciona materialmente a “salvação” com o “caminho”, mas a salvação exige que uma pessoa se ponha a caminho. Mais ainda: O próprio “acontecimento cristão” recebe o nome de “caminho”, “caminho de vida”,. “caminho de salvação”. No livro dos Actos dos Apóstolos é frequente esta designação. Nos Actos e nos escritos paulinos há uma certa identidade entre o “caminho” e o mesmo Cristo ou a Igreja. Podemos comparar Actos 24, 4 com 9, 2 onde se declara que Paulo perseguia “o caminho” ou a “alguns deste caminho”, com Gal 1, 3 onde o mesmo Paulo se apresenta como perseguidor da Igreja de Deus, ou como querendo destruir a fé. Em Act 9, 5 apresenta-se o próprio Cristo como “Eu sou Jesus a quem tu persegues”.
A experiência fundamental de salvação de Israel, paradigma de toda a salvação, é sem dúvida alguma o Êxodo, que passa pelo longo caminho do Deserto. Para o povo é uma experiência do que significa caminhar com o seu Deus, até entrar na Aliança.
Não é, pois, falta de sentido que Lucas enquadre esta pergunta sobre a salvação precisamente no caminho de Jesus para Jerusalém. “Salvar-se” significará “pôr-se em caminho”, de modo que se evite a reprovação mediante a aceitação de Cristo.
A pergunta que Lucas põe na boca do ouvinte anónimo supõe uma preocupação, não pelo número dos que se salvam na outra vida, o qual estaria aqui totalmente fora de contexto, mas uma preocupação para aqueles que vão ser capazes de aceitar e seguir a Cristo, uma vez que se observa uma recusa quase universal por parte principalmente dos responsáveis do povo. Este seguimento supõe acompanhá-lo no caminho a Jerusalém.
Jesus responde à pergunta com um chamamento ao esforço: “Esforçai-vos por...”, que quer significar: com João começou a pregar-se o Reino de Deus e este Reino tem as suas exigências. A preparação foi longa; a Lei e os Profetas anunciaram a sua vinda. Agora encontramo-nos já na plenitude dos tempos; o reino de Deus está no meio de nós, e não temos outro remédio senão nos violentarmos para o alcançar.
Este esforço vem simbolizado pela “porta estreita”. Porta e caminho são duas expressões frequentes para exprimir valores morais. Não se diz a onde conduz esta porta, mas também não se diz que depois se fechará; supõe-se que à sala do banquete, embora não se diga explicitamente o “banquete do reino de Deus” até ao v 29; mas a ideia está presente desde o princípio.
Podemos afirmar que a sala do banquete é o símbolo do Reino de Deus. A porta estreita que é necessário passar, conduz ao reino. Segundo o texto, os comensais já começaram a entrar. O dono está à espera, sentado, esperando o momento para se levantar e fechar a porta. Com as suas parábolas e atitudes, com as suas comidas com publicanos e pecadores, Jesus mostra de facto a presença de Deus. O Reino identifica-se, de algum modo, com a sua pessoa. Uma vez fechada a porta de acesso, é impossível a entrada na sala do banquete. Os de fora começam a bater. Se a salvação é incorporação ao Reino existente aqui e agora, esta é a falta dos que ficaram de fora da porta. Escutaram a pregação de Jesus nas ruas, estiveram com Ele sentados à mesa, mas não aceitaram o Reino que Ele anuncia e torna já presente na sua própria pessoa.

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