sexta-feira, agosto 31, 2007

XXII Domingo - Convidados para o banquete do Reino (Lc 14, 1.7-24)

Convidados para o banquete do Reino
Convidado para um banquete, Jesus aproveita a ocasião para oferecer duas séries de conselhos:
- não ambicionar os primeiros lugares (14, 8-11);
- convidar aqueles que não têm meios para corresponder com outro favor (14, 12-14).
Esta refeição é símbolo do banquete do reino como bem o expressa um dos comensais: “Feliz o que comer no banquete do Reino de Deus” (14, 15). O desprendimento total, no qual tanto insiste Lucas, exige também o desprendimento de ambições, do afã de ocupar os primeiros lugares, de converter os favores em fonte de benefícios. O Reino chama-nos ao amor e exclui o negócio: fazer bem sem esperar recompensa.
Não é decisão nossa a construção do reino de Deus, mas resposta à iniciativa de Deus que nos convoca. A preocupação pelos bens materiais congela-nos a vontade. Mas os planos de Deus têm de se cumprir. O Reino, desprezado pelos primeiros convidados, oferece-se generosamente a outros, principalmente aos pobres, aos cegos, coxos; isto é, a todos os que pela sua pobreza ou pelas suas taras físicas se viam excluídos do festim. Estes, porque nada têm, sentem-se mais livres para aceitar o convite.
Terminado o banquete, de novo no caminho e acompanhado por uma grande multidão, continua a sua catequese sobre a necessidade do desprendimento absoluto para entrar no Reino (14, 25-35).

sexta-feira, agosto 24, 2007

Domingo XXI - A porta estreita

A porta estreita (Lc 13, 22-30)
Lucas, quando coloca na boca do homem a pergunta “Senhor, são poucos os que se salvam?”, não pensa numa salvação no mais além, mas numa salvação já presente, que se realiza na história, e que consiste na aceitação e seguimento de Cristo. Lucas não fala tanto de “salvação” quanto de “história de salvação”.
Os textos neo-testamentários referentes ao tema da salvação mostram-nos uma frequente e curiosa associação entre “salvação” e “caminho”. Principalmente no Evangelho de Lucas e nos Actos dos apóstolos. Não é pura coincidência. Este “caminhar” em direcção a Jesus é integrar-se na história da salvação.
Não só se relaciona materialmente a “salvação” com o “caminho”, mas a salvação exige que uma pessoa se ponha a caminho. Mais ainda: O próprio “acontecimento cristão” recebe o nome de “caminho”, “caminho de vida”,. “caminho de salvação”. No livro dos Actos dos Apóstolos é frequente esta designação. Nos Actos e nos escritos paulinos há uma certa identidade entre o “caminho” e o mesmo Cristo ou a Igreja. Podemos comparar Actos 24, 4 com 9, 2 onde se declara que Paulo perseguia “o caminho” ou a “alguns deste caminho”, com Gal 1, 3 onde o mesmo Paulo se apresenta como perseguidor da Igreja de Deus, ou como querendo destruir a fé. Em Act 9, 5 apresenta-se o próprio Cristo como “Eu sou Jesus a quem tu persegues”.
A experiência fundamental de salvação de Israel, paradigma de toda a salvação, é sem dúvida alguma o Êxodo, que passa pelo longo caminho do Deserto. Para o povo é uma experiência do que significa caminhar com o seu Deus, até entrar na Aliança.
Não é, pois, falta de sentido que Lucas enquadre esta pergunta sobre a salvação precisamente no caminho de Jesus para Jerusalém. “Salvar-se” significará “pôr-se em caminho”, de modo que se evite a reprovação mediante a aceitação de Cristo.
A pergunta que Lucas põe na boca do ouvinte anónimo supõe uma preocupação, não pelo número dos que se salvam na outra vida, o qual estaria aqui totalmente fora de contexto, mas uma preocupação para aqueles que vão ser capazes de aceitar e seguir a Cristo, uma vez que se observa uma recusa quase universal por parte principalmente dos responsáveis do povo. Este seguimento supõe acompanhá-lo no caminho a Jerusalém.
Jesus responde à pergunta com um chamamento ao esforço: “Esforçai-vos por...”, que quer significar: com João começou a pregar-se o Reino de Deus e este Reino tem as suas exigências. A preparação foi longa; a Lei e os Profetas anunciaram a sua vinda. Agora encontramo-nos já na plenitude dos tempos; o reino de Deus está no meio de nós, e não temos outro remédio senão nos violentarmos para o alcançar.
Este esforço vem simbolizado pela “porta estreita”. Porta e caminho são duas expressões frequentes para exprimir valores morais. Não se diz a onde conduz esta porta, mas também não se diz que depois se fechará; supõe-se que à sala do banquete, embora não se diga explicitamente o “banquete do reino de Deus” até ao v 29; mas a ideia está presente desde o princípio.
Podemos afirmar que a sala do banquete é o símbolo do Reino de Deus. A porta estreita que é necessário passar, conduz ao reino. Segundo o texto, os comensais já começaram a entrar. O dono está à espera, sentado, esperando o momento para se levantar e fechar a porta. Com as suas parábolas e atitudes, com as suas comidas com publicanos e pecadores, Jesus mostra de facto a presença de Deus. O Reino identifica-se, de algum modo, com a sua pessoa. Uma vez fechada a porta de acesso, é impossível a entrada na sala do banquete. Os de fora começam a bater. Se a salvação é incorporação ao Reino existente aqui e agora, esta é a falta dos que ficaram de fora da porta. Escutaram a pregação de Jesus nas ruas, estiveram com Ele sentados à mesa, mas não aceitaram o Reino que Ele anuncia e torna já presente na sua própria pessoa.

sábado, agosto 18, 2007

XX Domingo: O fogo do amor que transforma o mundo

O evangelho de hoje (Lc 12,49-53) está em relação com o tema da radicalidade que se exige a todo aquele que quer ser discípulo de Jesus. As contradições, tão próprias da literatura semita, são paz-guerra e amor-ódio. Jesus profetiza dizendo que vem trazer o fogo à terra: temos de travar um combate e devemos participar nessa guerra. Jesus fala servindo-se de metáforas, imagens e comparações compreensíveis para a sua época. Não podemos fazer uma interpretação literal dos textos porque de outro modo não encontraríamos sentido para «se alguém quiser ser meu discípulo e não odiar o seu pai, mãe…» (Lc 14, 26).Contudo, o que Jesus quer pedir aos seus discípulos continua válido para os homens e mulheres do século XXI: temos de amar e não odiar. Perante os valores deste mundo o Evangelho continua a ser um sinal de contradição. A guerra tem de ser esta: perante a injustiça e a falta de amor, o continuar a amar é que constitui o combate que temos de travar. Os «nossos» (familiares, bens…) não são mais nossos quando vivemos a radicalidade do amor e isso traz o fogo à terra. Aos «nossos» amamo-los, mas sem renunciar ao que Deus deseja de nós. E se os nossos não nos aceitam nesta guerra de amor, a partir do Evangelho e com o Evangelho, continuarão a ser «nossos», mas não faremos o que eles querem. Esta foi a experiência de Jesus de Nazaré.