sábado, junho 16, 2007

Domingo XI - Quem é este que até perdoa os pecados?

O perdão à mulher pecadora (Lc 7, 36-50)
Não se dá o nome, de certo por discrição, desta mulher conhecida por todo o povo como pecadora. Não temos nenhum motivo para a identificar como sendo Maria Madalena de quem se fala no cap. 8, 2. Simão, o fariseu, tem o coração endurecido, coisa que não é rara entre os fariseus. Não compreende que uma pecadora se converta sinceramente; não compreende que Jesus se deixe ungir por aquela mulher: “Se este homem fosse profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que lhe está a tocar, porque é uma pecadora”. Jesus mostra um coração cheio de misericórdia acolhendo aquela mulher na qual se dão dois motivos de marginalização: ser pecadora e ser mulher.
Simão não entende que Jesus seja um profeta. Mais que um convidado ao banquete do Reino, é ele que convidou Jesus para o seu próprio banquete. Não cumpre os ritos de cortesia de um oriental. O texto parece insinuar que Jesus não foi convidado com boas intenções. Estão aqui presentes dois mundos: o dos fariseus e o de Jesus. E quem vai julgar estes dois mundos é a própria mulher que vai ser a juíza entre eles. Esta mulher vai restituir a dignidade a este profeta amigo de publicanos e pecadores.
Como sinal contrário está a atitude da mulher. O frasco de perfume, usado noutras ocasiões como provocação de pecado, converte-se agora em expressão de amor arrependido, que mostra por sua vez um perdão já recebido. A parábola que Jesus propõe a Simão esclarece tudo isto. O agradecimento mostra que se recebeu o favor. A mulher chora de agradecimento porque foi perdoada com generosidade. Precede o amor de Deus que perdoa; a seguir vem a resposta acolhedora desse perdão. Já não é lícito considerá-la uma pecadora. Simão endurece-se por negar o perdão.
O fariseu, os puritanos, os que se julgam bons… não sentem necessidade de nada e não podem agradecer o que se lhes faz. A mulher, pelo contrário, sente necessidade de compreensão, de perdão, de misericórdia e, consequentemente, ama muito. Devemos realçar o V. 47: não é o amor da pecadora que provoca o perdão, mas sim o perdão de Jesus que a leva a amar com toda a sua alma e o seu coração.
Jesus reintegra aquela mulher na sociedade que a marginalizou: “A tua fé te salvou. Vai em paz”. Teríamos que acrescentar aqui os três primeiros versículos do cap. 8, notando a atenção que Lucas presta ao grupo de mulheres que seguem Jesus.

sábado, junho 09, 2007

Domingo X - Comentário a Lc 7

OBRAS SÃO AMORES - OS SINAIS TESTEMUNHAM-N’O
Obras são amores e não as boas razões. As obras manifestam poder. As obras mostram, sobretudo, amor. O amor é acolhimento. O amor é perdão.
1. Poderoso em obras
Depois do discurso da planície, no qual Jesus se mostrou “poderoso em palavras”, agora vai manifestar-se “poderoso em obras”.
Lucas apresenta três sinais, intercalando neles a embaixada do Baptista:
- a cura do servo do centurião, na qual se mostra o universalismo da salvação e da fé;
- a ressurreição do filho da viuva de Naim;
- o perdão da pecadora, que manifesta a misericórdia de Jesus.
Os que vão beneficiar destes sinais respondem com uma atitude de fé em Cristo, com o reconhecimento da sua divindade, com um amor desbordante.

A cura do servo do centurião (Lc 7, 1-10)
O primeiro sinal que nos apresenta aqui é a cura do servo do centurião. Mais do que narrar o texto, quase que no-lo deixa adivinhar: “Jesus acompanhou-os”, mas nenhuma acção de Jesus nem nenhuma alusão à cura se descreve. Diz-se, isso sim, que “e, de regresso a casa, os enviados encontraram o servo de perfeita saúde”.
O interesse de Lc está em mostrar que se trata de um pagão, benfeitor do povo porque lhes construiu a sinagoga. Como pagão que é, não se aproxima directamente de Jesus, mas sim por intermediários. A sua atitude de plena confiança merece o louvor de Jesus “Digo-vos: nem em Israel encontrei tão grande fé”.
A fé cristã é fundamentalmente aceitação da pessoa de Cristo, que traz a salvação a todos os homens. Não foi fácil no início do cristianismo aceitar os pagãos (Act 10-11), como também não é fácil para nós abrirmos as comunidades sem mais limitações que a fé em Cristo. A referência à generosidade do centurião em favor dos judeus apresenta-se como uma recomendação perante Jesus. Talvez a intenção de Lucas seja captar a benevolência das comunidades judaicas em favor dos pagãos.

A ressurreição do filho da viuva de Naim (Lc 7, 11-17)
A cura de um doente é superada pela ressurreição de um defunto. É um episódio exclusivo de Lucas. A acção de Jesus apresenta-se fundamentalmente como misericórdia para com a viuva que tinha perdido o único filho. Todo o contexto e especialmente a expressão “entregou-o a sua mãe” recorda o gesto do profeta Elias que devolve a vida ao filho da viuva de Sarepta (1 Re 17, 17-24). Talvez assim se prepare a opinião daqueles que pensavam que Jesus era o Messias (9, 19).
Lc utiliza muitas vezes a palavra “Senhor” na boca de diferentes pessoas que falam com Jesus; é a primeira vez que o evangelista se refere a Jesus com este título, que é o nome com o qual se designa sempre a Deus na versão grega do AT.
A reacção dos presentes - “uma grande multidão acompanhava Jesus” -, não se faz esperar: admirados pelo que vêem proclamam Jesus como um grande profeta; reconhecem que Deus se tornou presente no seu povo; divulgam a notícia por todo o país e por toda a região.
Jesus vê e analisa a realidade: julga e compreende a situação e actua como consequência do que vê: diz uma só palavra à mãe: “Não chores” e uma só palavra ao defunto: “Levanta-te”. Este modo de actuar de Jesus é exemplo para nós: em vez de nos pormos a lamentar a situação, Jesus actua.
Entre este sinal e o seguinte coloca Lc a embaixada que João Baptista envia a partir da prisão (7, 18-23) para saber de Jesus se Ele é o Messias que ele tinha imaginado e que viria com a pá de joeirar o grão e queimar a palha na fogueira que nunca termina. Daí a pergunta: “És Tu, o que está para vir ou temos de esperar outro?” Jesus faz referência ao Messias anunciado pelos profetas e cita, por isso, as palavras de Isaías.

- A fé é fundamentalmente acolher a pessoa de Jesus. Como está a nossa fé enquanto abertura a Deus e serviço aos irmãos?
- Jesus vê a realidade que o rodeia, julga com misericórdia e actua em consequência deste ver e julgar. Somos nós assim na nossa vida de cada dia?

terça-feira, junho 05, 2007

Festa do Corpo de Deus

Algumas reflexões a partir dos textos bíblicos

* Um núcleo original

A Última Ceia de Jesus contém duas notas originais relativamente às refeições tradicionais judaicas: Aos dois gestos típicos da mesa – a fracção do pão e o cálice de bênção – ritos de entrada e de conclusão, respectivamente, de todos os convites judaicos. Jesus afirma que o pão é o Seu corpo e o vinho é o sangue derramado por toda a humanidade.

Os relatos da instituição da Eucaristia parecem ser uma explicitação, um desenvolvimento deste núcleo original. Jesus, perante a Sua morte, faz aos discípulos a promessa de uma nova comunhão. Jesus compreendeu e viveu a Sua morte como um serviço último e supremo à causa de Deus.

* As refeições pós-pascais: Eucaristia e Ressurreição

O encontro com o Ressuscitado tem lugar, habitualmente, em redor de uma mesa, durante uma refeição. Assim sucede com os discípulos de Emaús (Lc 24, 30-31); com os onze no cenáculo, comendo peixe assado (Lc 24, 41-43); em Mc 16, 14 a referência é evidente: «Apareceu aos próprios onze quando estavam à mesa»; na aparição na margem do lago de Tiberíades, em que Jesus prepara e serve aos Seus discípulos uma refeição com pão e peixe (Jo 21). Também segundo Act 1, 4, a última aparição, a da Ascensão, teve lugar «no decurso de uma refeição». Finalmente, Pedro conserva a recordação comovida das experiências com Jesus ressuscitado e fala dela no discurso em casa de Cornélio: «Deus ressuscitou-o ao terceiro dia e permitiu-lhe manifestar-se, não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele depois da sua ressurreição dos mortos» (Act 10, 41).

* A fracção do pão

O gesto de partir o pão é mencionado na pequena cidade de Tróade (cf. Act 20). Paulo, na sua última viagem missionária, reúne-se com os irmãos crentes, no primeiro dia da semana (mais tarde chamado dia do Senhor ou domingo), para partir o pão. A reunião nocturna («havia bastantes lâmpadas na sala de cima onde estávamos reunidos», v. 8) inclui esse gesto ritual, no âmbito de uma longa liturgia da palavra dirigida pessoalmente pelo próprio apóstolo. Paulo explica o significado do gesto de partir o pão no seu célebre texto da Carta aos Coríntios: «O pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque todos participamos desse único pão» (1 Cor 10, 16-17).
Se a Eucaristia como fracção do pão inclui a exigência interna do serviço fraterno, é porque constitui a recordação e a presença do Senhor ressuscitado, cuja vida e morte têm como principal chave de interpretação o serviço (diaconia) e a existência para os outros.

* O lava-pés no Evangelho de S. João

O Evangelho de S. João procura conduzir a comunidade para uma compreensão mais profunda da sua prática sacramental. Não pretende substituir o relato da instituição pelo do lava-pés. Pretende oferecer à comunidade que já celebra a Eucaristia uma doutrina semelhante à de Paulo quando escreve: «Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice anunciais a morte do Senhor até que Ele venha» (1 Cor 11, 26).
No relato de João, o crente é convidado a passar do rito para a pessoa. Ao praticar a Eucaristia, o crente deve fixar o olhar na pessoa de Jesus e na Sua atitude diaconal. Por isso, ao «Fazei isto em minha memória» (Lc 22, 19) corresponde em João «Também vós vos deveis lavar os pés uns aos outros» (Jo 13, 14), que remete para o «Amai-vos uns aos outros» (Jo 13, 34). Assim sendo, a comunidade fiel ao Senhor permanece duplamente ligada à Eucaristia e ao modelo diaconal. Acentua-se, em cada um dos casos, uma das vertentes: celebração ou vida. Mas estão ambas internamente unidas pelo tema comum da entrega, da doação, do serviço radical até à morte.

* A participação na Eucaristia

«Tomai e comei: isto é o meu corpo.»
«Este é o meu sangue para perdão dos pecados.»

As palavras sobre o pão e as palavras sobre o vinho exprimem a oferta da própria pessoa, da própria vida pelos outros; resumem toda a existência de Jesus como doação e entrega ao Pai e aos outros. Jesus chama ao pão simplesmente «meu corpo» («que será entregue por vós») (Lucas e Paulo), e ao vinho contido no cálice «meu sangue»; («sangue da aliança que será derramado por todos» (Marcos e Mateus); «a nova aliança selada com o meu sangue» (Lucas e Paulo).
O fundamento da presença real eucarística encontra-se, no Novo Testamento, em S. Paulo e em S. João. O texto de 1 Cor 11, à luz da catequese eucarística proposta pelo próprio Paulo (1 Cor 10), não dá lugar a dúvidas: «O cálice de bênção que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo?»... «Todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor» (1 Cor 10, 16; 11, 27; cf. 1 Cor 11, 29). Por outro lado, não devemos esquecer-nos de que Paulo, ao exprimir-se dessa maneira, mais não faz do que trazer à memória aquilo que devia ser familiar aos seus leitores. Esta interpretação é, certamente, muito realista: o pão e o vinho eucarísticos não são um puro sinal intencional, mas a própria realidade do corpo e do sangue do Senhor.
O evangelista S. João não é menos realista nos versículos finais do seu discurso sobre o pão da vida: «Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna. Porque a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue uma verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, fica a morar (permanece) em mim e eu nele» (Jo 6, 53-56). Estas linhas foram escritas em finais do século I, para cristãos que não podiam deixar de as aplicar à Eucaristia. Nelas está patente uma interpretação atribuída ao próprio Jesus.

Na Eucaristia, a Igreja alimenta-se do próprio Cristo; assim fica patente, neste sacramento, a permanente fundamentação da Igreja em Cristo: a Igreja exprime, na Eucaristia, a sua própria essência, recebendo-a precisamente do seu Senhor. O corpo do Senhor ressuscitado presente na Eucaristia é o “pão da vida” (Jo 6, 35), portador do dinamismo santificador do Espírito, que transforma interiormente o crente e a comunidade inteira que se alimenta d’Ele. A Eucaristia é a “Páscoa da Igreja” porque, num processo gradual, a vai arrancando do reino do pecado e da morte e a vai inserindo na comunhão de vida com o Senhor ressuscitado.


Domingo da Santíssima Trindade

Reflexão para esta semana

Impulsionada pela força do Espírito Santo, derramado no dia do Pentecostes, a Igreja nascente caminha nas pegadas do Senhor, que a precede no seu caminho para o Pai, horizonte e meta de tudo quanto existe. A fé trinitária é afirmada em todas as passagens dos Actos dos Apóstolos.

É no grupo das cartas paulinas que encontramos mais referências à fé trinitária dos primeiros seguidores de Jesus. Vejamos alguns dos textos mais importantes que referem a fé na Trindade das comunidades fundadas por S. Paulo e qual o seu significado para a nossa fé no Deus Uno e Trino.

«Paulo, Silvano e Timóteo à Igreja de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo, que está em Tessalónica. A vós, graça e paz. Damos continuamente graças a Deus por todos vós, recordando-vos sem cessar nas nossas orações; a vosso respeito, guardamos na memória a actividade da fé, o esforço da caridade e a constância da esperança, que vêm de Nosso Senhor Jesus Cristo, diante de Deus nosso Pai, conhecendo bem, irmãos amados de Deus, a vossa eleição, pois o nosso Evangelho não se apresentou a vós apenas como uma simples palavra, mas também com poder e com muito êxito pela acção do Espírito Santo; vós sabeis como estivemos entre vós para vosso bem» (1Ts 1, 1-5).

Este é o texto mais antigo do Novo Testamento, podendo ser datado do ano 50, menos de duas décadas após a morte de Jesus. A fé trinitária está presente nesta carta e podemos assegurar que os primeiros cristãos tinham bem presente, logo desde o início, a singular relação entre o Pai Deus, o seu Filho Jesus Cristo e o Espírito Santo, embora não chegassem a formular o dogma trinitário como aconteceu séculos mais tarde.
Este antiquíssimo testemunho Paulino remonta aos primeiros tempos da expansão missionária. Já, então, podemos observar que os primeiros cristãos tinham uma forte consciência de que a sua salvação, o seu chamamento a uma nova vida, procedia de Deus Pai, tinha-lhes sido anunciada em nome do seu Filho Jesus Cristo e tinha-se realizado pela força do Espírito Santo.

«Sois filhos bem amados de Deus e procedei com amor, como também Cristo nos amou e se entregou a Deus por nós como oferta e sacrifício de agradável odor» (Ef 5, 1-2).

O que melhor manifesta a mais profunda identidade do Ser de Deus é o amor: Amor pelo qual o Pai, o Filho e o Espírito se unem entre si e com toda a humanidade. Amor pelo qual Cristo se revela como o autêntico e único Filho de Deus e pelo qual vive toda a Sua vida como uma oferta ao Pai, convertendo-se em exemplo para todos o seus seguidores.
O amor, que procede do próprio Ser de Deus e que se transmite aos seus filhos pelo Filho através da acção do Espírito Santo, converte-se em luz para a sua própria vida e para aqueles que os contemplam: agora sois luz no Senhor. Quando vivemos de outro modo, não só faltamos à nossa própria identidade, negando a relação filial que mantemos com Deus, como também causamos tristeza ao Espírito de Deus: «Não ofendais o Espírito Santo de Deus, selo com o qual fostes marcados para o dia da redenção» (Ef 4, 30).

Caríssimos, se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros.
A Deus nunca ninguém o viu; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chegou à perfeição em nós. Damos conta de que permanecemos nele, e Ele em nós, por nos ter feito participar do seu Espírito.
Nós o contemplamos e damos testemunho de que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. Quem confessar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele» (1Jo 4, 7-16).