sexta-feira, fevereiro 29, 2008

CEGOS À VERDADE - EU SOU A LUZ DOMUNDO (Jo 9, 1-41)

Não há pior surdo que aquele que não quer ouvir
nem pior cego do que aquele que fecha os olhos à luz.
Porque vivemos cegos,
multiplicam-se as nossas quedas
e vemos tudo negro
.

No tema anterior vimos que Jesus se manifestava como luz e como vida, segundo o que já estava anunciado no Prólogo (1, 4). A seguir temos dois sinais: a cura de um cego de nascimento que fará que Jesus se apresente como luz dos homens e a ressurreição de Lázaro que o apresenta como a verdadeira vida.
A cura do cego é um sinal que nos mostra o triunfo da luz sobre as trevas. A água tinha um papel muito importante na comunicação da vida; também aqui a água aparece como meio para comunicar a luz. Não é a água das purificações, que ficou inválida em Caná; nem a água da piscina, que foi incapaz de curar o paralítico. A água que dá luz è a água de “Siloé”, isto é, o “Enviado”. Este sinal ocupa todo o Cap. X de S. João.

A narração do facto (Jo 9, 1-12)
Fora do Templo, sem dizer o lugar concreto, encontra-se um cego de nascimento. Os discípulos não se interessam pelo homem, mas sim pela possível culpa em ser cego (têm mentalidade judaica acerca do mal...). Jesus vê na cegueira daquele homem uma ocasião para manifestar as obras de Deus; estas obras acreditam-nO como “luz do mundo”.
Feita esta breve introdução, Jesus começa a actuar por sua própria iniciativa, sem que o cego o tenha pedido. Faz barro no chão, com saliva que é portadora de alento de vida e não barro com água. Ungiu-lhe os olhos, Ele que é o “Ungido”, o “Cristo” (4, 25) e manda-o lavar na piscina de Siloé, que significa o “Enviado”. Embora diga que foi à piscina e se lavou, não menciona a água. Tinha sido ungido com barro feito com saliva, mistura de água e espírito. A cura foi instantânea, dando lugar a discussões acerca da identidade do cego.

Investigação judicial (Jo 9, 13-34)
Os fariseus iniciam uma investigação porque a cura foi a um Sábado. Tratam de esclarecer os factos, mas a sua sentença já está dada: “Este homem não guarda o Sábado, não pode vir de Deus”. O homem que até agora tinha vivido na escuridão, torna-se cada vez mais lúcido à medida que vai respondendo às objecções:
- é um profeta (v. 17);
- se é pecador ou não, não o sabe; o único que sabe é que era cego e agora vê (v. 25);
- é estranho que não saibais de onde veio aquele que me abriu os olhos (v. 30);
- sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas sim aquele que é religioso e cumpre a sua vontade (v. 31);
- se este não viesse de Deus, não poderia fazer nada (v. 32).
Os dirigentes do povo procuram com todos os argumentos separar o cego de Jesus. Recorrem aos pais, que não se comprometem por medo dos judeus e o próprio cego ironiza: “também vós vos quereis fazer seus discípulos?”. Recorrem então à violência e expulsam-no da sinagoga.

A luz da fé (Jo 9, 35-39)
Expulso da sinagoga, sente-se livre para aceitar Jesus que vem ao seu encontro. Jesus pergunta-lhe: “Tu crês no Filho do Homem?” A luz recebida nos seus olhos leva-o a aceitar a luz da fé. Acredita e prostra-se diante de Jesus. Estabeleceu-se uma relação interpessoal que é fundamentalmente a fé. Os dirigentes do povo, apesar do seu sistema doutrinal, não abraçam a fé. A fé é sempre fruto de uma experiência pessoal do homem com Deus.
Os que pretendiam ser juízes são julgados. A acusação de Jesus é grave porque se apoia na recusa que os judeus fazem da luz, convertendo-se em cegos voluntários. A sentença é decisiva: “Se fosseis cegos não estaríeis em pecado; mas, como dizeis que vedes, o vosso pecado permanece”(v.41). O cego de nascimento não tinha pecado; os dirigentes do povo são cegos por causa do seu pecado.

sábado, fevereiro 23, 2008

III Domingo da Quaresma - A Samaritana (Evangelho catecumenal)

Jesus revela-se como a água viva que vem matar a nossa sede de Deus e do sentido para a vida
Uma mulher do povo - a samaritana (Jo 4, 4-30)
A rivalidade entre samaritanos e judeus era já de tempos antigos e com os quais Jesus tinha de se encontrar ao passar da Judeia para a Galileia.
O caminho tinha sido longo, Jesus sente-se esgotado. É meio dia e senta-se junto do poço de Jacob. Chega uma samaritana e Jesus pede-lhe água. Aparecem os primeiros sinais de inimizade entre judeus e os samaritanos. Mas por iniciativa de Jesus começa um diálogo salvador.
A primeira parte do diálogo (vv. 7-15) tem a água como pano de fundo. Da água do poço, Jesus passa a falar da água viva. Em Caná a água das purificações (que equivale à água do poço de Jacob) é substituída pelo vinho do banquete do reino. No episódio de Nicodemos a água é associada ao Espírito como fonte de vida nova. Esta é a água que brota de Cristo e salta até à vida eterna. É a mesma que brotará do lado do Senhor.
Como Nicodemos, a mulher não entende a s palavras de Jesus; atreve-se a pedir-lhe água como um desafio, mas dá-se início a um caminho de fé. Jesus ultrapassa as diferenças entre judeus e samaritanos e trata de excitar a curiosidade da mulher falando-lhe de uma água que é verdadeiro Dom de Deus. O povo considerou como Dom de Deus a água que brotou da rocha no deserto (Num 20, 2-13); Paulo comenta que a rocha era Cristo (1 Cor 10, 4).
Na segunda parte do texto (vv. 16-26) o diálogo toma outra direcção:
- Jesus interessa-se pela família da mulher;
- Ela confessa a sua situação familiar;
- O interesse recai directamente no aspecto religioso;
- Jesus manifesta-se claramente como o Messias.
Isto é um exemplo de pedagogia na catequese: arrancando dos pontos de interesse pessoais e familiares, chega-se à plena revelação da verdade messiânica.
É a própria mulher que faz a pergunta do ponto de vista religioso. O ponto central de divergência entre judeus e samaritanos era o Templo como lugar de culto (Jerusalém ou Garizim). Jesus declara caduco o culto que se oferece no Templo e tem de ser substituído por um culto novo em Espírito e em verdade. A mudança é radical: Jesus, o novo Templo, oferece-se a si mesmo como sacrifício, o único válido e agradável aos olhos do Pai. A instituição fica abolida.
A mulher, que o tinha confessado como profeta, apela à chegada eminente do Messias que “tudo explicará” (= os samaritanos esperavam um Messias revelador, enquanto que os judeus esperavam um Messias libertador político). Jesus aceita o messianismo dos samaritanos e manifesta-se claramente, coisa que não fará aos judeus.
A samaritana deixa o cântaro porque aceitou já a nova água. A fé converte-a em testemunha e vai dar aos seus compatriotas a notícia. Os seus vizinhos também se encontrarão pessoalmente com Jesus.
Quando chegam os discípulos, o tema da água é substituído pelo da comida (31-38). Para Jesus o verdadeiro alimento é cumprir a vontade do Pai.
O campo já está preparado; a ceifa será abundante, como se mostra na conversão de muitos dos samaritanos.

domingo, fevereiro 17, 2008

II Domingo da Quaresma - Transfiguração

Os primeiros 11 capítulos do livro do Génesis resumem o mistério da humanidade que, pouco a pouco, quis empreender um caminho independente do seu Criador. O capítulo 12, do qual hoje meditamos os primeiros quatro versículos, apresenta Abraão como o «Pai dos crentes», a quem se pede que deixe a sua terra, os laços familiares aos quais está unido porque Deus vai começar algo novo num sítio menos frondoso (vivia na planície entre os dois rios da Mesopotâmia, na Caldeia), onde existia uma cultura antiga e próspera. Depois da aliança estabelecida com Noé, na qual Deus jurou fidelidade a toda a obra da criação (cf. Gn 9), a humanidade continua a praticar o mal.
Deus continua a procurar a comunhão com os homens: a seguir à dispersão de Babel vem a vocação de Abraão, chamado a quebrar com os laços sociais a que estava unido para seguir incondicionalmente os caminhos do Senhor. Ao mandato de Deus, «sai da tua terra…» segue-se a promessa de uma bênção superabundante: em dois versículos aparece cinco vezes, e tal repetição indica os três âmbitos da acção de Deus em favor de Abraão. O primeiro âmbito é a promessa de uma descendência numerosa e de um nome dado por Deus; O segundo âmbito amplia o horizonte a todos os que, em Abraão, se converterão em filhos da Promessa; No Terceiro, o horizonte universaliza-se: Todas as nações da terra entram na história de salvação iniciada em Abraão, o «Pai dos Crentes».
Na Carta aos Hebreus descreve-se, à luz do mistério de Cristo Salvador, o chamamento de Abraão: Partiu para uma terra estranha, sem saber para onde ia, mas Deus nunca falta à sua Promessa e embora peça a nossa resposta Ele nunca falta aos seus compromissos. Babel significa os interesses egoístas de todos os povos e nações, com as suas confusões e orgulhos… porque Deus, um Deus com coração, oferece a Abraão e nele a toda a humanidade, uma vida com sentido. Babilónia é o símbolo de uma humanidade de sangue e lágrimas derramados. Deus, o Deus criador, não quer isso para a humanidade… e Abraão vai iniciar o caminho da fé e da confiança absoluta em Deus. Começa, assim, uma nova maneira de entender a religião como experiência de confiança em Deus criador e salvador. Esta é a chave para interpretarmos a aliança do Deus de Israel com o seu povo: os deuses babilónicos submetiam os homens ,enquanto o Deus de Israel confiava e chamava homens concretos para colaborarem com Ele na salvação da humanidade.
Na segunda leitura S. Paulo recomenda ao seu discípulo Timóteo que leve a cabo a missão que recebeu da parte de Deus: anunciar o Evangelho. Aqui aparece que o anúncio tem de ser feito pelo testemunho, pela força de Deus, pelas obras… O objectivo final é destruir a morte e oferecer-nos a imortalidade por meio do Evangelho. Tudo isto é um bom exemplo do kerigma cristão, aquilo que se deve proclamar ao mundo.
O Evangelho é, como todos os segundos domingos da Quaresma, o da Transfiguração. S. Mateus segue de perto S. Marcos e a Transfiguração é o momento em que Jesus inicia a sua viagem definitiva para Jerusalém. “Seis dias depois” - isto está no contexto dos anúncios da paixão. A medida do tempo (que era a semana para um judeu) ainda não tinha terminado. Os discípulos estão em crise: aceitam Jesus como Messias, mas não o seu messianismo e também não aceitam o seu programa que era a de renunciar ao poder. Elias (simboliza os profetas), Moisés (simboliza a Lei), isto é, todo o Antigo Testamento. A nuvem e a voz que se ouve é sempre sinal da presença de Deus. - “Este é o Meu Filho muito amado. Escutai-O”: O Antigo Testamento passou e agora só temos de prestar atenção a Jesus.
- Pedro queria unir o novo com o velho, mas não sabia o que dizia. Fica com eles apenas Jesus e é esse que temos de escutar e seguir.
- “É bom estarmos aqui” - a paz e o sossego daqueles que experimentam a relação de intimidade com Jesus Cristo.
Os três discípulos – Pedro, Tiago e João – são convidados a descer do monte porque devem percorrer com Jesus o caminho para Jerusalém, isto é, devem anunciar a salvação a todos os homens, porque essa é a vocação de Jesus.
Este texto fala-nos da procura de Deus e da sua vontade na contemplação e na oração. O que contempla o mistério de Deus deve anunciá-lo na vida do dia a dia.

domingo, fevereiro 10, 2008

I Domingo da Quaresma

Optar por Deus é viver o amor de filhos (Mt 4, 1-11)

Consagrado pelo Espírito, o Messias, enviado por Deus, sofre tentações: sozinho, jejuando sem comer pão, deve optar pessoalmente por Deus, antes de pregar o Deus que vai anunciar.
Com motivos diferentes, mas sempre coincidentes no seu objectivo, a tentação consiste em negar a decisão de Deus e concretiza-se em três assaltos, que estão narrados de forma simétrica:

1.º O tentador tem sempre a iniciativa (Mt 4,3.5.8); a tentação não surge fruto da situação de fome que Jesus passa; mas vem a partir de fora;
2.º Jesus reage apoiando-se na Palavra de Deus(Mt 4,4.6.10): ela serve de discernimento para acertar na prova e é guia da sua opção pessoal;
3.º O tentador não insiste nunca na mesma proposição; repete-se a tentativa, mas varia o motivo (Mt 4,3.4.9). Há que observar uma certa progressão nesses motivos que estão na base da proposta tentadora: da interrogação sobre a própria vida, passa-se à interrogação da presença de Deus, para terminar propondo a própria renúncia a Deus. Passar fome alimenta a dúvida sobre a providência de Deus que culmina na procura de outros deuses, que dão mais segurança e a quem terminaremos por adorar.

Como vencer as tentações que todos os dias nos assaltam?
Jesus, citando um texto no qual se recorda a Israel que a fome passada no deserto foi prova de uma pedagogia paterna (Dt 8,3; cf. 8,2-6), responde que para viver não precisa do pão material, mas de tudo quanto tenha Deus para lhe dizer: filho de Deus não é quem não tem dificuldades, mas sim quem se alimenta da palavra de Deus. Jesus sabe que o ser Filho amado (Mt 3,17) exige que se alimente da Palavra de Deus.
A segunda tentação (Mt 4,5-6) situa-se no templo de Jerusalém, lugar privilegiado da presença de Deus no meio do seu povo. A subtileza do tentador é aterradora: serve-se da palavra de Deus para tentar o filho de Deus (Mt 4,6). Jesus responde citando um texto que impõe o serviço exclusivo de Deus (Dt 6,16). O fiel que supera a tentação torna vitorioso o Deus a quem ama e a quem serve.
O tentador, longe de se dar por vencido (MT 4, 5-6), mostra a Jesus o mundo e a sua glória e oferece-lhos, se lhe prestar culto. Somente o diabo, na sua ousadia, pode chegar tão longe: disfarça-se de Deus e apresenta-se como divino diante do filho de Deus. Jesus manda ao tentador que se afaste e o texto citado (Dt 5,9; cf. 6,13) termina pela raiz com a questão e torna desnecessárias posteriores tentações. Não há prova que não possa superar aquele para quem somente Deus deva ser adorado: dar culto ao único Deus livra-nos de prestar culto aos nossos deuses, por mais maravilhosos que nos pareçam ser. Quem se sente apaixonado por Deus tem o seu coração disponível para o serviço de Deus e amar os irmãos.

sábado, fevereiro 02, 2008

III Domingo Comum - As Bem-aventuranças

As Bem-aventuranças - Carta Magna do Reino (Mt 5, 1-12)
Jesus começa a pregar o seu primeiro grande discurso: o sermão da montanha, que constitui a «Carta Magna» ou a «Constituição» fundamental da nova comunidade do Reino. O sermão da montanha é a chave do Evangelho.
Aproxima-se uma multidão como sinal de universalidade: vêm da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão - não apenas a totalidade do povo judeu, mas de toda a terra, do mundo inteiro.
Distinguimos três planos diferentes caracterizados pelos lugares e pelas pessoas que os ocupam: em l° lugar, Jesus ocupa o primeiro lugar, que simboliza a montanha; 2° lugar, a multidão, um pouco afastada mas na realidade muito próxima porque a ela vão ser enviados os discípulos; 3° lugar, os discípulos que são ouvintes privilegiados da Palavra, para serem depois testemunhas vivas entre os homens.
Como Moisés na montanha Jesus vai dar a sua lei ao novo Israel, a comunidade do Reino, onde existem umas normas mínimas que sejam o distintivo dos cidadãos do reino de Deus. Moisés recebeu de Deus, mas Jesus fala com autoridade própria: «foi dito aos antigos, Eu, porém, digo-vos», porque Jesus não vem acabar com a lei mas dar-lhe pleno cumprimento (5,17-19). Em 5,20 expõe-se o tema que se vai desenvolver: «se a vossa virtude (justiça) não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus» - os escribas eram mestres em teologia, com longos anos de estudo, enquanto os fariseus eram grupos de leigos piedosos, cumpridores rigorosos e até escrupulosos da lei. Jesus no sermão da montanha fala de uma justiça tripartida: a justiça dos escribas, a dos fariseus e a dos seus discípulos.

Para entrar no reino dos Céus é necessário aceitar o plano de Deus sobre os homens. Não se trata de umas leis que temos de cumprir, mas de uma maneira de ser, de um modo de entender a vida.

a) Ser livres
As três primeiras bem-aventuranças falam-nos do primeiro passo para a felicidade, o ser livres. Ser livres, antes de mais nada, das escravidões interiores: a escravidão do dinheiro, do prazer e do poder, que não trazem felicidade, mas antes dificultam a caminho para ela.
b) As outras três bem-aventuranças falam da justiça, do amor e da verdade.
a) As duas últimas falam da paz e da perseguição. Os discípulos de Cristo serão desprezados, perseguidos, levados até à morte porque quando se leva a sério o Evangelho, vê-se como são falsos os valores do mundo. Também Jesus foi perseguido. Foi perseguido por Herodes, os habitantes de Nazaré acusam-nO de curar ao Sábado, querem matá-lO porque ressuscitou Lázaro… Se O perseguiram a Ele também nos perseguirão a nós. Não nos faltarão dificuldades e perseguições, mas a palavra de Cristo continua de pé: «no mundo tereis aflições, mas tende confiança! Eu venci o mundo» (Jo 16,33).
"A Igreja prossegue a sua peregrinação no meio das perseguições do mundo e das consolações de Deus, anunciando a cruz e a morte do Senhor até que Ele venha. Mas é robustecida pela força do Senhor ressuscitado, de modo a vencer, pela paciência e pela caridade, as suas aflições e dificuldades tanto internas como externas, e a revelar, velada mas fielmente, o seu mistério, até que por fim se manifeste em plena luz" (LG 8).