segunda-feira, dezembro 31, 2007

Jornada mundial da paz- 1 de Janeiro de 2008

Neste dia mundial da paz, o primeiro dia do ano 2008, apresentamos algumas frases da mensagem do papa Bento XVI para este dia.
FAMÍLIA HUMANA, COMUNIDADE DE PAZ
"NO INÍCIO DE UM ANO NOVO, desejo fazer chegar meus ardentes votos de paz, acompanhados duma calorosa mensagem de esperança, aos homens e mulheres do mundo inteiro; faço-o, propondo à reflexão comum o tema com que abri esta mensagem e que me está particularmente a peito: Família humana, comunidade de paz. Com efeito, a primeira forma de comunhão entre pessoas é a que o amor suscita entre um homem e uma mulher decididos a unir-se estavelmente para construírem juntos uma nova família. Entretanto, os povos da terra também são chamados a instaurar entre si relações de solidariedade e colaboração, como convém em membros da única família humana: « Os homens – sentenciou o Concílio Vaticano II – constituem todos uma só comunidade; todos têm a mesma origem, pois foi Deus quem fez habitar em toda a terra o inteiro género humano (Act 17, 26); têm também todos um só fim último, Deus ».
Família, sociedade e paz
A família natural, enquanto comunhão íntima de vida e de amor fundada sobre o matrimónio entre um homem e uma mulher, constitui « o lugar primário da ‘‘humanização'' da pessoa e da sociedade », o « berço da vida e do amor ». Por isso, a família é justamente designada como a primeira sociedade natural, « uma instituição divina colocada como fundamento da vida das pessoas, como protótipo de todo o ordenamento social ».
Com efeito, numa vida familiar « sã » experimentam-se algumas componentes fundamentais da paz: a justiça e o amor entre irmãos e irmãs, a função da autoridade manifestada pelos pais, o serviço carinhoso aos membros mais débeis porque pequenos, doentes ou idosos, a mútua ajuda nas necessidades da vida, a disponibilidade para acolher o outro e, se necessário, perdoar-lhe. Por isso, a família é a primeira e insubstituível educadora para a paz. Não admira, pois, que a violência, quando perpetrada em família, seja sentida como particularmente intolerável. Deste modo, quando se diz que a família é « a primeira célula vital da sociedade », afirma-se algo de essencial. A família é fundamento da sociedade inclusivamente porque permite fazer decisivas experiências de paz. Devido a isso, a comunidade humana não pode prescindir do serviço que a família realiza. Onde poderá o ser humano em formação aprender melhor a apreciar o « sabor » genuíno da paz do que no « ninho » primordial que a natureza lhe prepara? A linguagem familiar usa um léxico de paz; aqui é necessário recorrer sempre para não perder o uso do vocabulário da paz. Na inflação das linguagens, a sociedade não pode perder a referência àquela « gramática » que cada criança aprende dos gestos e olhares da mãe e do pai, antes mesmo das suas palavras. Uma vez que a família tem o dever de educar os seus membros, a mesma é titular de direitos específicos. A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, que constitui uma aquisição de civilização jurídica de valor verdadeiramente universal, afirma que « a família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito a ser protegida pela sociedade e pelo Estado » Por seu lado, a Santa Sé quis reconhecer uma especial dignidade jurídica à família, publicando a Carta dos Direitos da Família. Lê-se no Preâmbulo: « Os direitos da pessoa, ainda que expressos como direitos do indivíduo, têm uma dimensão social fundamental, que encontra na família a sua expressão originária e vital ». Os direitos enunciados na Carta são expressão e explicitação da lei natural, inscrita no coração do ser humano e que lhe é manifestada pela razão. A negação ou mesmo a restrição dos direitos da família, obscurecendo a verdade sobre o homem, ameaça os próprios alicerces da paz.
Deste modo quem, mesmo inconscientemente, combate o instituto familiar, debilita a paz na comunidade inteira, nacional e internacional, porque enfraquece aquela que é efectivamente a principal « agência » de paz. Este é um ponto que merece especial reflexão: tudo o que contribui para debilitar a família fundada sobre o matrimónio de um homem e uma mulher, aquilo que directa ou indirectamente refreia a sua abertura ao acolhimento responsável de uma nova vida, o que dificulta o seu direito de ser a primeira responsável pela educação dos filhos, constitui um impedimento objectivo no caminho da paz. A família tem necessidade da casa, do emprego ou do justo reconhecimento da actividade doméstica dos pais, da escola para os filhos, de assistência sanitária básica para todos. Quando a sociedade e a política não se empenham a ajudar a família nestes campos, privam-se de um recurso essencial ao serviço da paz. De forma particular os meios de comunicação social, pelas potencialidades educativas de que dispõem, têm uma responsabilidade especial de promover o respeito pela família, de ilustrar as suas expectativas e os seus direitos, de pôr em evidência a sua beleza.

domingo, dezembro 30, 2007

Domingo da Sagrada Família

Celebrámos o Natal e o Domingo da Sagrada Família. Deus criou-nos família e Cristo quis entrar na nossa história nascendo numa família humilde e discreta de Nazaré, perante a grandeza da Roma imperial. Corremos de longe ou de perto para consoar com a nossa família na noite de Natal. Mas que família, e que dramas se viveram nessa noite de Natal perante a crise da família (!). Era esta pequena reflexão que eu queria fazer convosco, caros paroquianos.
Estamos numa cultura a que chamamos não já da pós-modernidade, mas da ultra-modernidade. Ela caracteriza-se principalmente pela:
¤ negação dos absolutos;
¤ renúncia à verdade;
¤ negação das cosmovisões;
¤ perda do sentido histórico;
¤ renascimento do politeísmo: “volta triunfal dos deuses” ;
¤ prática de vida em que o homem aparece como objecto e não uma pessoa;
¤ globalização, multiculturalidade, revolução informática, tutela do meio ambiente, de costas viradas às raízes cristãs.
As consequências sobre a família são:
¤ fazer do divórcio algo normal e banal (divórcio “Express”; festas de divórcio);
¤ fazer da infidelidade, do aborto, da anticoncepção, algo pessoal, sem norma, sem lei:
¤ casar no Senhor (na Igreja), sem crer no Senhor, por razões que não nascem da fé;
¤ perda dos valores objectivos sendo que cada um surge como norma moral de si mesmo,
¤ não existe sexo, existe o género, e cada um é livre para escolher se é heterossexual, bisexual ou homossexual;
¤ não há modelo de matrimónio e qualquer tipo de união é válida e exige consideração de igualdade em relação às outras.
Isto gerou uma profunda transformação da família tradicional: o divórcio a atingir 50% em Portugal e nalgumas zonas dos USA os 75%, as famílias monoparentais, os casais com filhos de casamentos anteriores e filhos comuns (que confusão na cabeça das crianças!) …
Este quadro negro, em quadra de Natal, em que Jesus veio como Esperança para o mundo, não nos pode deixar indiferentes. A Família tem de ser uma prioridade da nossa pastoral, da nossa oração, de todos nós, sociedade, igreja. Sem família não teremos nada. Estamos a construir um mundo de infelizes. É hora de acordar, de contemplar a família de Nazaré e encarnarmos o seu modelo nos dias de hoje.
Um Feliz ANO NOVO para todas as famílias. Parabéns aos que neste ano têm a graça e a alegria de celebrar 25, 50 ou mais anos de matrimónio.

sábado, dezembro 22, 2007

Natal de Jesus - Uma boa notícia para todos

Um conto de Natal com votos deBoas Festas para todos
O Menino, o Boi e o Jumento

Os evangelhos não falam do boi e do burrinho que estariam na manjedoura junto a Jesus sobre as palhinhas. Mas a tradição fala neles. Sua história é comovente e encanta crianças e adultos. Em tempos de ecologia ganha um significado especial. Vamos contar a verdade desta estória antiga que é contada a seu modo em cada língua.
Um camponês tinha um boi e um jumento muito velhos e já imprestáveis para o trabalho no campo. Afeiçoara-se a eles. Gostaria que morressem de morte natural. Mas iam definhando dia a dia. Resolveu sacrificá-los no matadouro. Quando decidiu, sentiu-se mal não conseguindo dormir à noite. O boi e jumento perceberam que havia algo de estranho no ar. Moviam mal suas carcaças sem poder dormitar. A vida lhes fora dura. Passaram por vários donos. De todos apanharam muito. Era sua condição de animais de carga. Lá pela meia-noite, repentinamente, sentiram que uma mão invisível os conduzia por estreito caminho rumo a uma estrebaria. Diziam entre si: "Que nos obrigarão fazer nesta noite fria? Não temos mais força para nada". Foram conduzidos a uma gruta, onde havia uma luzinha trêmula e uma manjedoura. Pensavam que iam comer algum feno. Ficaram maravilhados quando viram que lá dentro, sobre palhinhas, tiritante, estava um lindo recém-nascido. Um velho inclinado, José, procurava aquecer o menino com seu sopro. O boi e o burrinho logo entenderam. Deviam aquecer o menino. Também com seu sopro. Aproximaram seus focinhos. Quando perceberam a beleza e a irradiação do menino, suas carcaças estremeceram de emoção. E sentiram forte vigor interno. Com os focinhos bem pertinho do menino, começaram, lentamente, a respirar sobre ele que assim ficou aquecido. De repente, o menino abriu os olhos. "Agora ele vai chorar" disse o burrinho ao boi, "pois nossos focinhos feios o assustaram". O menino, ao contrário, os fitou amorosamente e estendeu a mãozinha para acariciar seus focinhos. E continuava a sorrir, como se fora uma cascata de água. "O menino ri" disse José a Maria. "Ele não pára de rir". "Deve ser porque o focinho do boi e do burrinho são engraçados". Maria sorriu e ficou calada. Acostumada a guardar todas as coisas em seu coração, sabia que era um milagre de seu divino menino. O fato é que os próprios animais ficaram alegres. Ninguém lhes havia reconhecido algum mérito na vida. E eis que aqui estavam acalentando o Senhor do universo na forma de uma criança. Ao voltar para casa, perceberam que outros burros e bois os olhavam com ar de admiração. Estavam tão felizes que ao avistar a casa arriscaram até um galope. Ai, perceberam que estavam realmente cheios de vitalidade. Voltaram para a estrebaria. De manhãzinha veio o patrão para levá-los ao matadouro. Eles ficaram assustados, como se dissessem:"deixa-nos viver um pouco mais!". O padrão olhou espantado e disse:"mas estes não são os meus velhos animais? Como assim que estão revigorados, com a pele lisa e luzidia e as pernas firmes e fortes"? Ele os deixou estar. Durante anos e anos serviram ao patrão fielmente. Mas ele sempre se perguntava: "Meu Deus, quem transformou de repente em jovens e vigorosos, o burrinho e o boi tão velhinhos"? Mas as crianças que sabem do menino Jesus, têm condições de lhe dar uma resposta.
Com o Menino, o boi e o jumento desejo: "Feliz Natal a todos os leitores e leitoras".

IV Domingo do Advento - S.José e o Natal

Uma das figuras do Presépio que mais despercebida passa, nestes dias, é a de São José. Este ano, contudo, recebe um destaque inesperado no Vaticano, que decidiu colocar o presépio da Praça de São Pedro na sua casa de Nazaré, seguindo uma passagem do Evangelho de São Mateus, em que um anjo convence José, durante um sonho, a aceitar Maria e o seu filho.
Acredita-se que São José seria mais velho do que Maria quando a tomou como noiva, mas a iconografia tradicional “exagera” essa diferença de idades, em muitos casos.
Pelos relatos evangélicos percebe-se que José e Maria eram descendentes de David e que o seu matrimónio deverá ter sido combinado para evitar que, na ausência de descendentes homens de Joaquim (avô materno de Jesus), a sua herança passasse para um outro clã ou outra tribo.
O esposo de Maria e pai legal de Jesus trabalhava como carpinteiro em Nazaré. Após o nascimento de Jesus e do exílio forçado da Sagrada Família no Egipto, regressou a Nazaré.
Os Evangelhos falam dele pela última vez no encontro do Menino Jesus no Templo, aos 12 anos.
O seu drama pessoal ao ter conhecimento da gravidez de Maria, com quem se teria comprometido a viver na castidade, está bem presente no Evangelho de Mateus. Nele se refere que o nascimento de Jesus Cristo foi assim: “Maria, sua mãe, estava desposada com José; antes de coabitarem, notou-se que tinha concebido pelo poder do Espírito Santo. José, seu esposo, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente”.
“Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados»”; continua o relato evangélico.
E as Ladainhas de São José invocam-no nestes termos: “Custos pudice Virginis” (Casto guardião da Virgem), “Joseph castissime” (José castíssimo) e “Custos virginum” (Guardião das virgens).
Antes dos pastores, antes de Simeão, antes dos Magos, São José contempla o Filho de Deus feito homem, do qual se tornou o pai, contempla Deus que ninguém nunca tinha visto. Tornou-se ainda o chefe da Sagrada Família, modelo e imagem das famílias.
João Paulo II escreveu que “o filho de Maria é também filho de José”, mas os Evangelhos “não registam palavra alguma que ele tenha dito”. Graças a essa atitude de silencio, referia o Papa polaco, “pode captar-se perfeitamente a verdade contida no juízo que dele nos dá o evangelho: «o justo»”.

sábado, dezembro 15, 2007

III Domingo do Advento – Procurar a alegria como uma atitude necessária para esperar o Senhor

A leitura do Profeta Isaías evoca uma cena com imagens criativas e criadoras: Uma caravana de repatriados chega à cidade ideal do mundo - Jerusalém, encabeçada por uma das coisas que é mais necessária ao nosso coração – a alegria. Não se trata de uma alegria passageira, mas sim de uma alegria permanente; esta procissão, tão especial, tem no seu final a alegria e o fim do deserto, da infelicidade, da opressão e da injustiça.
O Advento é, assim, uma caravana viva à procura do Deus connosco, o Emanuel.
S. Tiago, na segunda leitura, apresenta também dois elementos próprios deste tempo: A vinda do Senhor e a paciência à imagem do lavrador que espera a chuva para que a sua sementeira nasça e dê fruto.
O Evangelho de S. Mateus diz-nos que o Reino de Deus é salvação e nunca condenação. Jesus é o lavrador do Reino que anuncia. A diferença entre João Baptista e Jesus é que o primeiro anuncia um juízo que destrói (o machado está na raiz da árvore), enquanto Jesus, o novo profeta, propõe soluções: os cegos vêem, os coxos andam…
Os profetas verdadeiros – e nós devemos ser um deles – detecta os males (como João Baptista), mas devemos também apresentar soluções (como Jesus): curam, ajudam os últimos da sociedade, oferecem oportunidades de salvação.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

II Domingo do Advento - Esperar o salvador que vem

O Santo Padre Bento XVI publicou, com data de 30 de Novembro passado, uma Encíclica sobre a Esperança – “Spe Salvi: é na esperança que fomos salvos”. O Advento é um tempo que convida a esperar o salvador que vem ao nosso encontro. Neste sentido, propomos para esta semana alguns textos da Encíclica Spe Salvi para serem meditados por cada um de nós ao longo desta semana.

A verdadeira e grande esperança do homem, que resiste apesar de todas as desilusões, só pode ser Deus – o Deus que nos amou, e ama ainda agora «até ao fim», «até à plena consumação» (cf. Jo 13,1 e 19,30). Quem é atingido pelo amor começa a intuir em que consistiria propriamente a «vida». Começa a intuir o significado da palavra de esperança que encontramos no rito do Baptismo: da fé espero a «vida eterna» – a vida verdadeira que, inteiramente e sem ameaças, em toda a sua plenitude é simplesmente vida. Jesus, que disse de Si mesmo ter vindo ao mundo para que tenhamos a vida e a tenhamos em plenitude, em abundância (cf. Jo 10,10), também nos explicou o que significa «vida»: «A vida eterna consiste nisto: Que Te conheçam a Ti, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a Quem enviaste» (Jo 17,3). A vida, no verdadeiro sentido, não a possui cada um em si próprio sozinho, nem mesmo por si só: aquela é uma relação. E a vida na sua totalidade é relação com Aquele que é a fonte da vida. Se estivermos em relação com Aquele que não morre, que é a própria Vida e o próprio Amor, então estamos na vida. Então «vivemos».

Precisamos das esperanças – menores ou maiores – que, dia após dia, nos mantêm a caminho. Mas, sem a grande esperança que deve superar tudo o resto, aquelas não bastam. Esta grande esperança só pode ser Deus, que abraça o universo e nos pode propor e dar aquilo que, sozinhos, não podemos conseguir. Precisamente o ser gratificado com um dom faz parte da esperança. Deus é o fundamento da esperança – não um deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até ao fim: cada indivíduo e a humanidade no seu conjunto. O seu reino não é um além imaginário, colocado num futuro que nunca mais chega; o seu reino está presente onde Ele é amado e onde o seu amor nos alcança. Somente o seu amor nos dá a possibilidade de perseverar com toda a sobriedade dia após dia, sem perder o ardor da esperança, num mundo que, por sua natureza, é imperfeito. E, ao mesmo tempo, o seu amor é para nós a garantia de que existe aquilo que intuímos só vagamente e, contudo, no íntimo esperamos: a vida que é «verdadeiramente» vida.

Dia 8 de Dezembro: Imaculada Conceição, Padroeira de Portugal

Publicamos, na festa da Padroeira de Portugal, a oração que o Papa Bento XVI faz a Nossa Senhora no final da sua mais recente Encíclica sobre a esperança - Spe Salvi.
«Santa Maria, Vós pertencíeis àquelas almas humildes e grandes de Israel que, como Simeão, esperavam «a consolação de Israel» (Lc 2,25) e, como Ana, aguardavam a « libertação de Jerusalém » (Lc 2,38). Vós vivíeis em íntimo contacto com as Sagradas Escrituras de Israel, que falavam da esperança, da promessa feita a Abraão e à sua descendência (cf. Lc 1,55). Assim, compreendemos o santo temor que Vos invadiu, quando o anjo do Senhor entrou nos vossos aposentos e Vos disse que daríeis à luz Àquele que era a esperança de Israel e o esperado do mundo. Por meio de Vós, através do vosso «sim», a esperança dos milénios havia de se tornar realidade, entrar neste mundo e na sua história. Vós Vos inclinastes diante da grandeza desta missão e dissestes «sim». «Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). Quando, cheia de santa alegria, atravessastes apressadamente os montes da Judeia para encontrar a vossa parente Isabel, tornastes-Vos a imagem da futura Igreja, que no seu seio, leva a esperança do mundo através dos montes da história. Mas, a par da alegria que difundistes pelos séculos, com as palavras e com o cântico do vosso Magnificat, conhecíeis também as obscuras afirmações dos profetas sobre o sofrimento do servo de Deus neste mundo. Sobre o nascimento no presépio de Belém brilhou o esplendor dos anjos que traziam a boa nova aos pastores, mas, ao mesmo tempo, a pobreza de Deus neste mundo era demasiado palpável. O velho Simeão falou-Vos da espada que atravessaria o vosso coração (cf. Lc 2,35), do sinal de contradição que vosso Filho haveria de ser neste mundo. Depois, quando iniciou a actividade pública de Jesus, tivestes de Vos pôr de lado, para que pudesse crescer a nova família, para cuja constituição Ele viera e que deveria desenvolver-se com a contribuição daqueles que tivessem ouvido e observado a sua palavra (cf. Lc 11,27s). Apesar de toda a grandeza e alegria do primeiro início da actividade de Jesus, Vós, já na Sinagoga de Nazaré, tivestes de experimentar a verdade da palavra sobre o «sinal de contradição» (cf. Lc 4,28s). Assim, vistes o crescente poder da hostilidade e da rejeição que se ia progressivamente afirmando à volta de Jesus até à hora da cruz, quando tivestes de ver o Salvador do mundo, o herdeiro de David, o Filho de Deus morrer como um falido, exposto ao escárnio, entre os malfeitores. Acolhestes então a palavra: «Mulher, eis aí o teu filho» (Jo 19,26). Da cruz, recebestes uma nova missão. A partir da cruz ficastes mãe de uma maneira nova: mãe de todos aqueles que querem acreditar no vosso Filho Jesus e segui-Lo. A espada da dor trespassou o vosso coração. Tinha morrido a esperança? Ficou o mundo definitivamente sem luz, a vida sem objectivo? Naquela hora, provavelmente, no vosso íntimo tereis ouvido novamente a palavra com que o anjo tinha respondido ao vosso temor no instante da anunciação: «Não temas, Maria!» (Lc 1,30). Quantas vezes o Senhor, o vosso Filho, dissera a mesma coisa aos seus discípulos: Não temais! Na noite do Gólgota, Vós ouvistes outra vez esta palavra. Aos seus discípulos, antes da hora da traição, Ele tinha dito: «Tende confiança! Eu venci o mundo» (Jo 16,33). «Não se turve o vosso coração, nem se atemorize» (Jo 14,27). «Não temas, Maria!» Na hora de Nazaré, o anjo também Vos tinha dito: «O seu reinado não terá fim » (Lc 1,33). Teria talvez terminado antes de começar? Não; junto da cruz, na base da palavra mesma de Jesus, Vós tornastes-Vos mãe dos crentes. Nesta fé que, inclusive na escuridão do Sábado Santo, era certeza da esperança, caminhastes para a manhã de Páscoa. A alegria da ressurreição tocou o vosso coração e uniu-Vos de um novo modo aos discípulos, destinados a tornar-se família de Jesus mediante a fé. Assim Vós estivestes no meio da comunidade dos crentes, que, nos dias após a Ascensão, rezavam unanimemente pedindo o dom do Espírito Santo (cf. Act 1,14) e o receberam no dia de Pentecostes. O «reino» de Jesus era diferente daquele que os homens tinham podido imaginar. Este «reino» iniciava naquela hora e nunca mais teria fim. Assim, Vós permaneceis no meio dos discípulos como a sua Mãe, como Mãe da esperança. Santa Maria, Mãe de Deus, Mãe nossa, ensinai-nos a crer, esperar e amar convosco. Indicai-nos o caminho para o seu reino! Estrela do mar, brilhai sobre nós e guiai-nos no nosso caminho!»

sábado, dezembro 01, 2007

I Domingo Advento - O Senhor vem ao nosso encontro

A destruição do templo e a vinda do Filho do homem (Mt 24, 1-44)
A narração anterior acabava com palavras muito duras contra os fariseus e com esta gravíssima expressão: "A vossa casa ficará deserta" (23, 38), queda do povo judeu (parábolas dos dois filhos, dos vinhateiros homicidas e os convidados para as bodas) e a queda do templo, o seu principal baluarte. Provavelmente os discípulos não entendem as palavras de Jesus e quando saem do templo Jesus esclarece o seu pensamento: "Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra; tudo será destruído" (v. 2). Os discípulos enchem-se de medo e formulam duas perguntas: Quando acontecerá tudo isto e qual o sinal da vinda do Filho do homem e do fim do mundo?
Duas perguntas diferentes que aparecem aqui intimamente relacionadas. Jesus responde simultaneamente, mas não diz que estes factos ocorram ao mesmo tempo. Ele assinala algumas diferenças que são fundamentais: A destruição do templo, que coincidirá com a destruição de Jerusalém, é um acontecimento que os discípulos podem e devem evitar fugindo, e, por causa disto, indica-lhes os sinais precursores. A última vinda e o fim do mundo é uma catástrofe cósmica que atingirá da mesma maneira todos os homens. Uma segunda diferença: O primeiro acontecimento está relativamente próximo, acontecerá antes que desapareça a presente geração; do tempo do segundo, Jesus não quer dizer nada porque é segredo do Pai.
Os sinais da destruição do templo

A redacção do texto não pode ser clara porque emprega um género apocalíptico. O que se diz da destruição do templo podemos aplicá-lo ao fim do mundo, porque para o povo judeu ver destruído o templo é como ver o mundo destruído; e também porque a destruição do templo se converte em símbolo do fim do mundo. Antes que o mundo seja destruído o Evangelho deve ser proclamado em todo o mundo.
Quando Mateus escreve este texto, provavelmente já o templo tinha sido destruído, mas narra-o em estilo apocalíptico, com frequentes alusões aorpofeta Daniel que é o mais representativo deste estilo no Antigo Testamento. A profanação que Tito fez do templo está narrada com alusões à anterior destruição dos tempos de Antíoco Epifanes (Cf. 1 Mac 1, 54; Dn 9, 27; 11,31; 12, 11). Terão de fugir depressa e, por isso, tem pena das grávidas e deseja que não aconteça num sábado pois a lei não permite longas caminhadas. Com o simbolismo dos astros que caem, o próprio Daniel refere-se à queda dos reinos (8,1). Então aparecerá o sinal do Filho do homem, o mesmo sinal que tinha anunciado Daniel em 7, 13-14.
Sendo um texto escrito em género apocalíptico, não é fácil interpretar estes sinais. Podemos sublinhar um deles:
"Haverá sismos, ou tremores de terra". A imagem "sismo" aparece várias vezes em Mateus como símbolo da vinda efectiva dos últimos tempos. Quando morre Jesus, um terramoto abre as sepulturas (Mt 27, 51) e, ao ver o terramoto, os guardas enchem-se de medo (27, 54). Outro terramoto abre o sepulcro de Jesus (28, 2). Todas estas imagens recolhidas no A.T., têm que nos testemunhar que esta vinda é certa e que temos de a esperar na fé. A destruição do templo supõe o desaparecimento dos últimos restos do A.T. Assim se designa a vinda do Ressuscitado que dará início a um mundo novo.
O "quando" da vinda
"O dia e a hora ninguém os sabe, nem os anjos do céu nem o Filho, mas apenas o Pai" (24, 36). Como Messias anuncia a proximidade da destruição do templo. Pede aos discípulos que estejam atentos, porque o Pai reservou para si o fim dos tempos, e para cada um o fim do tempo é o fim da sua vida. Esta é a resposta de Jesus e o apelo à vigilância, que se completará com três parábolas sobre este mesmo tema e uma referência ao último juízo como já presente.