segunda-feira, dezembro 31, 2007

Jornada mundial da paz- 1 de Janeiro de 2008

Neste dia mundial da paz, o primeiro dia do ano 2008, apresentamos algumas frases da mensagem do papa Bento XVI para este dia.
FAMÍLIA HUMANA, COMUNIDADE DE PAZ
"NO INÍCIO DE UM ANO NOVO, desejo fazer chegar meus ardentes votos de paz, acompanhados duma calorosa mensagem de esperança, aos homens e mulheres do mundo inteiro; faço-o, propondo à reflexão comum o tema com que abri esta mensagem e que me está particularmente a peito: Família humana, comunidade de paz. Com efeito, a primeira forma de comunhão entre pessoas é a que o amor suscita entre um homem e uma mulher decididos a unir-se estavelmente para construírem juntos uma nova família. Entretanto, os povos da terra também são chamados a instaurar entre si relações de solidariedade e colaboração, como convém em membros da única família humana: « Os homens – sentenciou o Concílio Vaticano II – constituem todos uma só comunidade; todos têm a mesma origem, pois foi Deus quem fez habitar em toda a terra o inteiro género humano (Act 17, 26); têm também todos um só fim último, Deus ».
Família, sociedade e paz
A família natural, enquanto comunhão íntima de vida e de amor fundada sobre o matrimónio entre um homem e uma mulher, constitui « o lugar primário da ‘‘humanização'' da pessoa e da sociedade », o « berço da vida e do amor ». Por isso, a família é justamente designada como a primeira sociedade natural, « uma instituição divina colocada como fundamento da vida das pessoas, como protótipo de todo o ordenamento social ».
Com efeito, numa vida familiar « sã » experimentam-se algumas componentes fundamentais da paz: a justiça e o amor entre irmãos e irmãs, a função da autoridade manifestada pelos pais, o serviço carinhoso aos membros mais débeis porque pequenos, doentes ou idosos, a mútua ajuda nas necessidades da vida, a disponibilidade para acolher o outro e, se necessário, perdoar-lhe. Por isso, a família é a primeira e insubstituível educadora para a paz. Não admira, pois, que a violência, quando perpetrada em família, seja sentida como particularmente intolerável. Deste modo, quando se diz que a família é « a primeira célula vital da sociedade », afirma-se algo de essencial. A família é fundamento da sociedade inclusivamente porque permite fazer decisivas experiências de paz. Devido a isso, a comunidade humana não pode prescindir do serviço que a família realiza. Onde poderá o ser humano em formação aprender melhor a apreciar o « sabor » genuíno da paz do que no « ninho » primordial que a natureza lhe prepara? A linguagem familiar usa um léxico de paz; aqui é necessário recorrer sempre para não perder o uso do vocabulário da paz. Na inflação das linguagens, a sociedade não pode perder a referência àquela « gramática » que cada criança aprende dos gestos e olhares da mãe e do pai, antes mesmo das suas palavras. Uma vez que a família tem o dever de educar os seus membros, a mesma é titular de direitos específicos. A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, que constitui uma aquisição de civilização jurídica de valor verdadeiramente universal, afirma que « a família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito a ser protegida pela sociedade e pelo Estado » Por seu lado, a Santa Sé quis reconhecer uma especial dignidade jurídica à família, publicando a Carta dos Direitos da Família. Lê-se no Preâmbulo: « Os direitos da pessoa, ainda que expressos como direitos do indivíduo, têm uma dimensão social fundamental, que encontra na família a sua expressão originária e vital ». Os direitos enunciados na Carta são expressão e explicitação da lei natural, inscrita no coração do ser humano e que lhe é manifestada pela razão. A negação ou mesmo a restrição dos direitos da família, obscurecendo a verdade sobre o homem, ameaça os próprios alicerces da paz.
Deste modo quem, mesmo inconscientemente, combate o instituto familiar, debilita a paz na comunidade inteira, nacional e internacional, porque enfraquece aquela que é efectivamente a principal « agência » de paz. Este é um ponto que merece especial reflexão: tudo o que contribui para debilitar a família fundada sobre o matrimónio de um homem e uma mulher, aquilo que directa ou indirectamente refreia a sua abertura ao acolhimento responsável de uma nova vida, o que dificulta o seu direito de ser a primeira responsável pela educação dos filhos, constitui um impedimento objectivo no caminho da paz. A família tem necessidade da casa, do emprego ou do justo reconhecimento da actividade doméstica dos pais, da escola para os filhos, de assistência sanitária básica para todos. Quando a sociedade e a política não se empenham a ajudar a família nestes campos, privam-se de um recurso essencial ao serviço da paz. De forma particular os meios de comunicação social, pelas potencialidades educativas de que dispõem, têm uma responsabilidade especial de promover o respeito pela família, de ilustrar as suas expectativas e os seus direitos, de pôr em evidência a sua beleza.

domingo, dezembro 30, 2007

Domingo da Sagrada Família

Celebrámos o Natal e o Domingo da Sagrada Família. Deus criou-nos família e Cristo quis entrar na nossa história nascendo numa família humilde e discreta de Nazaré, perante a grandeza da Roma imperial. Corremos de longe ou de perto para consoar com a nossa família na noite de Natal. Mas que família, e que dramas se viveram nessa noite de Natal perante a crise da família (!). Era esta pequena reflexão que eu queria fazer convosco, caros paroquianos.
Estamos numa cultura a que chamamos não já da pós-modernidade, mas da ultra-modernidade. Ela caracteriza-se principalmente pela:
¤ negação dos absolutos;
¤ renúncia à verdade;
¤ negação das cosmovisões;
¤ perda do sentido histórico;
¤ renascimento do politeísmo: “volta triunfal dos deuses” ;
¤ prática de vida em que o homem aparece como objecto e não uma pessoa;
¤ globalização, multiculturalidade, revolução informática, tutela do meio ambiente, de costas viradas às raízes cristãs.
As consequências sobre a família são:
¤ fazer do divórcio algo normal e banal (divórcio “Express”; festas de divórcio);
¤ fazer da infidelidade, do aborto, da anticoncepção, algo pessoal, sem norma, sem lei:
¤ casar no Senhor (na Igreja), sem crer no Senhor, por razões que não nascem da fé;
¤ perda dos valores objectivos sendo que cada um surge como norma moral de si mesmo,
¤ não existe sexo, existe o género, e cada um é livre para escolher se é heterossexual, bisexual ou homossexual;
¤ não há modelo de matrimónio e qualquer tipo de união é válida e exige consideração de igualdade em relação às outras.
Isto gerou uma profunda transformação da família tradicional: o divórcio a atingir 50% em Portugal e nalgumas zonas dos USA os 75%, as famílias monoparentais, os casais com filhos de casamentos anteriores e filhos comuns (que confusão na cabeça das crianças!) …
Este quadro negro, em quadra de Natal, em que Jesus veio como Esperança para o mundo, não nos pode deixar indiferentes. A Família tem de ser uma prioridade da nossa pastoral, da nossa oração, de todos nós, sociedade, igreja. Sem família não teremos nada. Estamos a construir um mundo de infelizes. É hora de acordar, de contemplar a família de Nazaré e encarnarmos o seu modelo nos dias de hoje.
Um Feliz ANO NOVO para todas as famílias. Parabéns aos que neste ano têm a graça e a alegria de celebrar 25, 50 ou mais anos de matrimónio.

sábado, dezembro 22, 2007

Natal de Jesus - Uma boa notícia para todos

Um conto de Natal com votos deBoas Festas para todos
O Menino, o Boi e o Jumento

Os evangelhos não falam do boi e do burrinho que estariam na manjedoura junto a Jesus sobre as palhinhas. Mas a tradição fala neles. Sua história é comovente e encanta crianças e adultos. Em tempos de ecologia ganha um significado especial. Vamos contar a verdade desta estória antiga que é contada a seu modo em cada língua.
Um camponês tinha um boi e um jumento muito velhos e já imprestáveis para o trabalho no campo. Afeiçoara-se a eles. Gostaria que morressem de morte natural. Mas iam definhando dia a dia. Resolveu sacrificá-los no matadouro. Quando decidiu, sentiu-se mal não conseguindo dormir à noite. O boi e jumento perceberam que havia algo de estranho no ar. Moviam mal suas carcaças sem poder dormitar. A vida lhes fora dura. Passaram por vários donos. De todos apanharam muito. Era sua condição de animais de carga. Lá pela meia-noite, repentinamente, sentiram que uma mão invisível os conduzia por estreito caminho rumo a uma estrebaria. Diziam entre si: "Que nos obrigarão fazer nesta noite fria? Não temos mais força para nada". Foram conduzidos a uma gruta, onde havia uma luzinha trêmula e uma manjedoura. Pensavam que iam comer algum feno. Ficaram maravilhados quando viram que lá dentro, sobre palhinhas, tiritante, estava um lindo recém-nascido. Um velho inclinado, José, procurava aquecer o menino com seu sopro. O boi e o burrinho logo entenderam. Deviam aquecer o menino. Também com seu sopro. Aproximaram seus focinhos. Quando perceberam a beleza e a irradiação do menino, suas carcaças estremeceram de emoção. E sentiram forte vigor interno. Com os focinhos bem pertinho do menino, começaram, lentamente, a respirar sobre ele que assim ficou aquecido. De repente, o menino abriu os olhos. "Agora ele vai chorar" disse o burrinho ao boi, "pois nossos focinhos feios o assustaram". O menino, ao contrário, os fitou amorosamente e estendeu a mãozinha para acariciar seus focinhos. E continuava a sorrir, como se fora uma cascata de água. "O menino ri" disse José a Maria. "Ele não pára de rir". "Deve ser porque o focinho do boi e do burrinho são engraçados". Maria sorriu e ficou calada. Acostumada a guardar todas as coisas em seu coração, sabia que era um milagre de seu divino menino. O fato é que os próprios animais ficaram alegres. Ninguém lhes havia reconhecido algum mérito na vida. E eis que aqui estavam acalentando o Senhor do universo na forma de uma criança. Ao voltar para casa, perceberam que outros burros e bois os olhavam com ar de admiração. Estavam tão felizes que ao avistar a casa arriscaram até um galope. Ai, perceberam que estavam realmente cheios de vitalidade. Voltaram para a estrebaria. De manhãzinha veio o patrão para levá-los ao matadouro. Eles ficaram assustados, como se dissessem:"deixa-nos viver um pouco mais!". O padrão olhou espantado e disse:"mas estes não são os meus velhos animais? Como assim que estão revigorados, com a pele lisa e luzidia e as pernas firmes e fortes"? Ele os deixou estar. Durante anos e anos serviram ao patrão fielmente. Mas ele sempre se perguntava: "Meu Deus, quem transformou de repente em jovens e vigorosos, o burrinho e o boi tão velhinhos"? Mas as crianças que sabem do menino Jesus, têm condições de lhe dar uma resposta.
Com o Menino, o boi e o jumento desejo: "Feliz Natal a todos os leitores e leitoras".

IV Domingo do Advento - S.José e o Natal

Uma das figuras do Presépio que mais despercebida passa, nestes dias, é a de São José. Este ano, contudo, recebe um destaque inesperado no Vaticano, que decidiu colocar o presépio da Praça de São Pedro na sua casa de Nazaré, seguindo uma passagem do Evangelho de São Mateus, em que um anjo convence José, durante um sonho, a aceitar Maria e o seu filho.
Acredita-se que São José seria mais velho do que Maria quando a tomou como noiva, mas a iconografia tradicional “exagera” essa diferença de idades, em muitos casos.
Pelos relatos evangélicos percebe-se que José e Maria eram descendentes de David e que o seu matrimónio deverá ter sido combinado para evitar que, na ausência de descendentes homens de Joaquim (avô materno de Jesus), a sua herança passasse para um outro clã ou outra tribo.
O esposo de Maria e pai legal de Jesus trabalhava como carpinteiro em Nazaré. Após o nascimento de Jesus e do exílio forçado da Sagrada Família no Egipto, regressou a Nazaré.
Os Evangelhos falam dele pela última vez no encontro do Menino Jesus no Templo, aos 12 anos.
O seu drama pessoal ao ter conhecimento da gravidez de Maria, com quem se teria comprometido a viver na castidade, está bem presente no Evangelho de Mateus. Nele se refere que o nascimento de Jesus Cristo foi assim: “Maria, sua mãe, estava desposada com José; antes de coabitarem, notou-se que tinha concebido pelo poder do Espírito Santo. José, seu esposo, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente”.
“Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados»”; continua o relato evangélico.
E as Ladainhas de São José invocam-no nestes termos: “Custos pudice Virginis” (Casto guardião da Virgem), “Joseph castissime” (José castíssimo) e “Custos virginum” (Guardião das virgens).
Antes dos pastores, antes de Simeão, antes dos Magos, São José contempla o Filho de Deus feito homem, do qual se tornou o pai, contempla Deus que ninguém nunca tinha visto. Tornou-se ainda o chefe da Sagrada Família, modelo e imagem das famílias.
João Paulo II escreveu que “o filho de Maria é também filho de José”, mas os Evangelhos “não registam palavra alguma que ele tenha dito”. Graças a essa atitude de silencio, referia o Papa polaco, “pode captar-se perfeitamente a verdade contida no juízo que dele nos dá o evangelho: «o justo»”.

sábado, dezembro 15, 2007

III Domingo do Advento – Procurar a alegria como uma atitude necessária para esperar o Senhor

A leitura do Profeta Isaías evoca uma cena com imagens criativas e criadoras: Uma caravana de repatriados chega à cidade ideal do mundo - Jerusalém, encabeçada por uma das coisas que é mais necessária ao nosso coração – a alegria. Não se trata de uma alegria passageira, mas sim de uma alegria permanente; esta procissão, tão especial, tem no seu final a alegria e o fim do deserto, da infelicidade, da opressão e da injustiça.
O Advento é, assim, uma caravana viva à procura do Deus connosco, o Emanuel.
S. Tiago, na segunda leitura, apresenta também dois elementos próprios deste tempo: A vinda do Senhor e a paciência à imagem do lavrador que espera a chuva para que a sua sementeira nasça e dê fruto.
O Evangelho de S. Mateus diz-nos que o Reino de Deus é salvação e nunca condenação. Jesus é o lavrador do Reino que anuncia. A diferença entre João Baptista e Jesus é que o primeiro anuncia um juízo que destrói (o machado está na raiz da árvore), enquanto Jesus, o novo profeta, propõe soluções: os cegos vêem, os coxos andam…
Os profetas verdadeiros – e nós devemos ser um deles – detecta os males (como João Baptista), mas devemos também apresentar soluções (como Jesus): curam, ajudam os últimos da sociedade, oferecem oportunidades de salvação.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

II Domingo do Advento - Esperar o salvador que vem

O Santo Padre Bento XVI publicou, com data de 30 de Novembro passado, uma Encíclica sobre a Esperança – “Spe Salvi: é na esperança que fomos salvos”. O Advento é um tempo que convida a esperar o salvador que vem ao nosso encontro. Neste sentido, propomos para esta semana alguns textos da Encíclica Spe Salvi para serem meditados por cada um de nós ao longo desta semana.

A verdadeira e grande esperança do homem, que resiste apesar de todas as desilusões, só pode ser Deus – o Deus que nos amou, e ama ainda agora «até ao fim», «até à plena consumação» (cf. Jo 13,1 e 19,30). Quem é atingido pelo amor começa a intuir em que consistiria propriamente a «vida». Começa a intuir o significado da palavra de esperança que encontramos no rito do Baptismo: da fé espero a «vida eterna» – a vida verdadeira que, inteiramente e sem ameaças, em toda a sua plenitude é simplesmente vida. Jesus, que disse de Si mesmo ter vindo ao mundo para que tenhamos a vida e a tenhamos em plenitude, em abundância (cf. Jo 10,10), também nos explicou o que significa «vida»: «A vida eterna consiste nisto: Que Te conheçam a Ti, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a Quem enviaste» (Jo 17,3). A vida, no verdadeiro sentido, não a possui cada um em si próprio sozinho, nem mesmo por si só: aquela é uma relação. E a vida na sua totalidade é relação com Aquele que é a fonte da vida. Se estivermos em relação com Aquele que não morre, que é a própria Vida e o próprio Amor, então estamos na vida. Então «vivemos».

Precisamos das esperanças – menores ou maiores – que, dia após dia, nos mantêm a caminho. Mas, sem a grande esperança que deve superar tudo o resto, aquelas não bastam. Esta grande esperança só pode ser Deus, que abraça o universo e nos pode propor e dar aquilo que, sozinhos, não podemos conseguir. Precisamente o ser gratificado com um dom faz parte da esperança. Deus é o fundamento da esperança – não um deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até ao fim: cada indivíduo e a humanidade no seu conjunto. O seu reino não é um além imaginário, colocado num futuro que nunca mais chega; o seu reino está presente onde Ele é amado e onde o seu amor nos alcança. Somente o seu amor nos dá a possibilidade de perseverar com toda a sobriedade dia após dia, sem perder o ardor da esperança, num mundo que, por sua natureza, é imperfeito. E, ao mesmo tempo, o seu amor é para nós a garantia de que existe aquilo que intuímos só vagamente e, contudo, no íntimo esperamos: a vida que é «verdadeiramente» vida.

Dia 8 de Dezembro: Imaculada Conceição, Padroeira de Portugal

Publicamos, na festa da Padroeira de Portugal, a oração que o Papa Bento XVI faz a Nossa Senhora no final da sua mais recente Encíclica sobre a esperança - Spe Salvi.
«Santa Maria, Vós pertencíeis àquelas almas humildes e grandes de Israel que, como Simeão, esperavam «a consolação de Israel» (Lc 2,25) e, como Ana, aguardavam a « libertação de Jerusalém » (Lc 2,38). Vós vivíeis em íntimo contacto com as Sagradas Escrituras de Israel, que falavam da esperança, da promessa feita a Abraão e à sua descendência (cf. Lc 1,55). Assim, compreendemos o santo temor que Vos invadiu, quando o anjo do Senhor entrou nos vossos aposentos e Vos disse que daríeis à luz Àquele que era a esperança de Israel e o esperado do mundo. Por meio de Vós, através do vosso «sim», a esperança dos milénios havia de se tornar realidade, entrar neste mundo e na sua história. Vós Vos inclinastes diante da grandeza desta missão e dissestes «sim». «Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). Quando, cheia de santa alegria, atravessastes apressadamente os montes da Judeia para encontrar a vossa parente Isabel, tornastes-Vos a imagem da futura Igreja, que no seu seio, leva a esperança do mundo através dos montes da história. Mas, a par da alegria que difundistes pelos séculos, com as palavras e com o cântico do vosso Magnificat, conhecíeis também as obscuras afirmações dos profetas sobre o sofrimento do servo de Deus neste mundo. Sobre o nascimento no presépio de Belém brilhou o esplendor dos anjos que traziam a boa nova aos pastores, mas, ao mesmo tempo, a pobreza de Deus neste mundo era demasiado palpável. O velho Simeão falou-Vos da espada que atravessaria o vosso coração (cf. Lc 2,35), do sinal de contradição que vosso Filho haveria de ser neste mundo. Depois, quando iniciou a actividade pública de Jesus, tivestes de Vos pôr de lado, para que pudesse crescer a nova família, para cuja constituição Ele viera e que deveria desenvolver-se com a contribuição daqueles que tivessem ouvido e observado a sua palavra (cf. Lc 11,27s). Apesar de toda a grandeza e alegria do primeiro início da actividade de Jesus, Vós, já na Sinagoga de Nazaré, tivestes de experimentar a verdade da palavra sobre o «sinal de contradição» (cf. Lc 4,28s). Assim, vistes o crescente poder da hostilidade e da rejeição que se ia progressivamente afirmando à volta de Jesus até à hora da cruz, quando tivestes de ver o Salvador do mundo, o herdeiro de David, o Filho de Deus morrer como um falido, exposto ao escárnio, entre os malfeitores. Acolhestes então a palavra: «Mulher, eis aí o teu filho» (Jo 19,26). Da cruz, recebestes uma nova missão. A partir da cruz ficastes mãe de uma maneira nova: mãe de todos aqueles que querem acreditar no vosso Filho Jesus e segui-Lo. A espada da dor trespassou o vosso coração. Tinha morrido a esperança? Ficou o mundo definitivamente sem luz, a vida sem objectivo? Naquela hora, provavelmente, no vosso íntimo tereis ouvido novamente a palavra com que o anjo tinha respondido ao vosso temor no instante da anunciação: «Não temas, Maria!» (Lc 1,30). Quantas vezes o Senhor, o vosso Filho, dissera a mesma coisa aos seus discípulos: Não temais! Na noite do Gólgota, Vós ouvistes outra vez esta palavra. Aos seus discípulos, antes da hora da traição, Ele tinha dito: «Tende confiança! Eu venci o mundo» (Jo 16,33). «Não se turve o vosso coração, nem se atemorize» (Jo 14,27). «Não temas, Maria!» Na hora de Nazaré, o anjo também Vos tinha dito: «O seu reinado não terá fim » (Lc 1,33). Teria talvez terminado antes de começar? Não; junto da cruz, na base da palavra mesma de Jesus, Vós tornastes-Vos mãe dos crentes. Nesta fé que, inclusive na escuridão do Sábado Santo, era certeza da esperança, caminhastes para a manhã de Páscoa. A alegria da ressurreição tocou o vosso coração e uniu-Vos de um novo modo aos discípulos, destinados a tornar-se família de Jesus mediante a fé. Assim Vós estivestes no meio da comunidade dos crentes, que, nos dias após a Ascensão, rezavam unanimemente pedindo o dom do Espírito Santo (cf. Act 1,14) e o receberam no dia de Pentecostes. O «reino» de Jesus era diferente daquele que os homens tinham podido imaginar. Este «reino» iniciava naquela hora e nunca mais teria fim. Assim, Vós permaneceis no meio dos discípulos como a sua Mãe, como Mãe da esperança. Santa Maria, Mãe de Deus, Mãe nossa, ensinai-nos a crer, esperar e amar convosco. Indicai-nos o caminho para o seu reino! Estrela do mar, brilhai sobre nós e guiai-nos no nosso caminho!»

sábado, dezembro 01, 2007

I Domingo Advento - O Senhor vem ao nosso encontro

A destruição do templo e a vinda do Filho do homem (Mt 24, 1-44)
A narração anterior acabava com palavras muito duras contra os fariseus e com esta gravíssima expressão: "A vossa casa ficará deserta" (23, 38), queda do povo judeu (parábolas dos dois filhos, dos vinhateiros homicidas e os convidados para as bodas) e a queda do templo, o seu principal baluarte. Provavelmente os discípulos não entendem as palavras de Jesus e quando saem do templo Jesus esclarece o seu pensamento: "Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra; tudo será destruído" (v. 2). Os discípulos enchem-se de medo e formulam duas perguntas: Quando acontecerá tudo isto e qual o sinal da vinda do Filho do homem e do fim do mundo?
Duas perguntas diferentes que aparecem aqui intimamente relacionadas. Jesus responde simultaneamente, mas não diz que estes factos ocorram ao mesmo tempo. Ele assinala algumas diferenças que são fundamentais: A destruição do templo, que coincidirá com a destruição de Jerusalém, é um acontecimento que os discípulos podem e devem evitar fugindo, e, por causa disto, indica-lhes os sinais precursores. A última vinda e o fim do mundo é uma catástrofe cósmica que atingirá da mesma maneira todos os homens. Uma segunda diferença: O primeiro acontecimento está relativamente próximo, acontecerá antes que desapareça a presente geração; do tempo do segundo, Jesus não quer dizer nada porque é segredo do Pai.
Os sinais da destruição do templo

A redacção do texto não pode ser clara porque emprega um género apocalíptico. O que se diz da destruição do templo podemos aplicá-lo ao fim do mundo, porque para o povo judeu ver destruído o templo é como ver o mundo destruído; e também porque a destruição do templo se converte em símbolo do fim do mundo. Antes que o mundo seja destruído o Evangelho deve ser proclamado em todo o mundo.
Quando Mateus escreve este texto, provavelmente já o templo tinha sido destruído, mas narra-o em estilo apocalíptico, com frequentes alusões aorpofeta Daniel que é o mais representativo deste estilo no Antigo Testamento. A profanação que Tito fez do templo está narrada com alusões à anterior destruição dos tempos de Antíoco Epifanes (Cf. 1 Mac 1, 54; Dn 9, 27; 11,31; 12, 11). Terão de fugir depressa e, por isso, tem pena das grávidas e deseja que não aconteça num sábado pois a lei não permite longas caminhadas. Com o simbolismo dos astros que caem, o próprio Daniel refere-se à queda dos reinos (8,1). Então aparecerá o sinal do Filho do homem, o mesmo sinal que tinha anunciado Daniel em 7, 13-14.
Sendo um texto escrito em género apocalíptico, não é fácil interpretar estes sinais. Podemos sublinhar um deles:
"Haverá sismos, ou tremores de terra". A imagem "sismo" aparece várias vezes em Mateus como símbolo da vinda efectiva dos últimos tempos. Quando morre Jesus, um terramoto abre as sepulturas (Mt 27, 51) e, ao ver o terramoto, os guardas enchem-se de medo (27, 54). Outro terramoto abre o sepulcro de Jesus (28, 2). Todas estas imagens recolhidas no A.T., têm que nos testemunhar que esta vinda é certa e que temos de a esperar na fé. A destruição do templo supõe o desaparecimento dos últimos restos do A.T. Assim se designa a vinda do Ressuscitado que dará início a um mundo novo.
O "quando" da vinda
"O dia e a hora ninguém os sabe, nem os anjos do céu nem o Filho, mas apenas o Pai" (24, 36). Como Messias anuncia a proximidade da destruição do templo. Pede aos discípulos que estejam atentos, porque o Pai reservou para si o fim dos tempos, e para cada um o fim do tempo é o fim da sua vida. Esta é a resposta de Jesus e o apelo à vigilância, que se completará com três parábolas sobre este mesmo tema e uma referência ao último juízo como já presente.

domingo, novembro 11, 2007

Domingo XXXII- Deus não é um Deus de mortos mas de vivos (Lc 20,27-38)

Os saduceus tinham uma mentalidade materialista (negavam a existência dos anjos e dos espíritos, a espiritualidade, a imortalidade das almas e a ressurreição dos corpos). Os saduceus só aceitavam a autoridade de Moisés e, por isso, a pergunta apoia-se em Dt 25, 5-6 e pensam que a ressurreição é um absurdo perante o exemplo que apresentam a Jesus: uma mulher que teve 7 maridos.
Jesus responde e diz que estão enganados porque:
* Os corpos ressuscitados não são como os nossos corpos mortais. Os corpos ressuscitados não precisam de se reproduzir;
* Os imortais não precisam de continuar a espécie;
* Jesus cita Moisés e afirma que o nosso Deus é um Deus de vivos e não de mortos. O «Deus de Abraão» que tinha morrido séculos atrás quer significar que Abraão «ainda vive» em tempos de Moisés, uma vez que é Deus de vivos e não de mortos.

sábado, novembro 03, 2007

Domingo XXI - O Reino de Deus exige umpacto de justiça

Zaqueu, o cobrador de impostos (Lc 19 1-10)

Em contraste com o texto anterior, temos um homem que renuncia aos seus bens para seguir Jesus. Zaqueu é um pecador conhecido e porque é pequeno sobe a uma árvore. Jesus olha para ele pessoalmente, não o chama para o acompanhar, mas é o próprio Jesus que se oferece para o visitar na sua própria casa. Quando Zaqueu aceita Jesus na sua casa, há uma mudança total na sua vida “Vou dar metade...”. O convite de Jesus a cear na casa de Zaqueu não é uma aceitação das riquezas mas sim um procurar os pecadores, os perdidos, os que necessitam de salvação. A salvação de Zaqueu começa com o reconhecimento do próprio pecado e a sua profunda conversão. Não se diz de que falaram pelo caminho até casa, mas a amizade com Jesus, expressa no facto de comerem à mesa, exige a renúncia às riquezas.
Partilhar a mesa da Eucaristia não é aceitar a mesma amizade que exige mudar a nossa vida? Se nos encontramos pessoalmente com Cristo, a conversão total é segura. Se ainda não nos convertemos totalmente é porque ainda não nos encontrámos com Cristo. Quando escutamos uma palavra, ou fazemos uma reflexão, quando olhamos a vida... podemos descobrir um defeito que temos de corrigir; mas a mudança radical só acontece a partir de um encontro pessoal com Cristo.

sábado, outubro 27, 2007

Domingo XXX - O fariseu e o publicano

A gratuidade do dom de Deus (Lc 18, 9-14)
No v. 9 podemos encontrar a fotografia mais perfeita do autêntico fariseu:
- à força de cumprir a Lei, pensa estar a bem com Deus;
- a sua atitude legalista fá-lo sentir-se seguro de si mesmo;
- a sua fidelidade nas obras fá-lo desprezar os outros.
Perante o fariseu, cheio de orgulho e vã glória, aparece o publicano - cobrador de impostos -, que se sente vazio de si mesmo e só pode oferecer a Deus os seus próprios pecados para que sejam perdoados. Como a viúva confiava na justiça do juiz, o cobrador de impostos sabe que o perdão depende da benevolência de Deus que lho concede gratuitamente.
Não se trata de falsos símbolos. O fariseu não é ladrão, nem injusto, nem adúltero; ele jejua duas vezes por semana e paga o dízimo do que ganha. O cobrador de impostos não tem nada de bom para oferecer e tudo espera da misericórdia de Deus. Nos sentiríamos inclinados a condená-lo. Mas o juízo de Deus é desconcertante: é este e não aquele que sai justificado do templo. Deus não escuta a nossa oração em atenção aos nossos méritos prévios, mas porque encontra disposto o nosso coração para o arrependimento. É o paradoxo da vida cristã: embora seja necessário progredir na virtude e isso exige esforço da nossa parte, é gratuita a salvação que Deus nos oferece.

sábado, outubro 20, 2007

XXIX - Domingo - A Oração é uma relação de amizade

É necessário voltar ao tema da oração, que é básico “no caminho”. Mais que grandes teorias, Lucas oferece-nos exemplos claros, tomados da vida:
- confiança ilimitada da viúva;
- gratuidade do dom de Deus;
- atitude de crianças.

Confiança ilimitada da viúva (Lc 18, 1-8)
O tema está relacionado com a chegada do Reino. Não sabemos quando será. Talvez seja longa a espera. Nessas circunstâncias, temos de rezar sem desânimo, seguros de que Deus fará justiça. Os ouvintes são os discípulos, como no texto imediatamente anterior; apenas a eles se pode falar de oração, porque só eles podem entender e pôr em prática.
A viúva é o protótipo de toda a pessoa sem apoio. Deus mostra-se protector de viúvas. Na aplicação da parábola é claramente Deus que faz justiça. Embora o protagonista da parábola seja o juiz, interessamo-nos mais pela atitude da viúva, que chega a alcançar o que deseja. A perseverança na oração é indício de que nos mantemos na fé que alimenta a nossa esperança. Quando Deus se mostra a nós afastado, é porque nós primeiro nos afastámos d’Ele.
Terminada a parábola, Jesus mostra-se triste. Por parte de Deus não há dúvida que haverá justiça, mas mostrar-se-ão fiéis os homens? Por isso, porque as dificuldades são reais, torna-se necessário insistir na perseverança na oração. Quando os discípulos oram, Deus faz ver a sua acção:
- “Velai, pois, orando continuamente, a fim de terdes força para escapar a tudo o que vai acontecer e aparecerdes firmes diante do Filho do Homem” (21, 36).
- “Rezai para não cairdes em tentação” (22, 40.46).
- A oração de Jesus assegura a fidelidade de Pedro (22, 31-32).
Para rezar sempre, para orar com perseverança, temos de nos educar na oração. É muito duvidosa a amizade dos que dizem ser amigos e nunca conversam entre si. Dedicamos o nosso tempo àquilo que realmente nos interessa. Se há crise de oração é porque há crise de verdadeiros discípulos e amigos.

sexta-feira, outubro 19, 2007

domingo das Missões: Todas as Igrejas para o mundo todo

(Da mensagemdoPapa para este Dia Mundialdas Missões recordamos algumas passagens mais significativas)
Por ocasião do próximo Dia Missionário Mundial gostaria de convidar todo o povo de Deus Pastores, sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos para uma reflexão comum sobre a urgência e a importância que reveste, também neste nosso tempo, a acção missionária da Igreja. De facto, não cessam de ecoar, como chamada universal e apelo urgente, as palavras com as quais Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado antes de subir ao Céu, confiou aos Apóstolos o mandamento missionário: "Ide, pois, ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho mandado". E acrescentou: "Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo" (Mt 28, 19-20). Na empenhativa obra de evangelização ampara-nos e acompanha-nos a certeza de que Ele, o dono da messe, está connosco e guia incessantemente o seu povo. É Cristo a fonte inexaurível da missão da Igreja
"Todas as Igrejas para o mundo inteiro": é este o tema escolhido para o próximo Dia Missionário Mundial. Ele convida as Igrejas locais de cada Continente a uma partilhada consciência sobre a urgente necessidade de relançar a acção missionária perante os numerosos e graves desafios do nosso tempo. Certamente são diferentes as condições em que vive a humanidade, e nestes decénios foi realizado um grande esforço para a difusão do Evangelho, especialmente a partir do Concílio Vaticano II. Contudo, permanece ainda muito a fazer para responder ao apelo missionário que o Senhor nunca se cansa de fazer a cada baptizado. Ele continua a convidar, em primeiro lugar, as Igrejas chamadas de antiga tradição, que no passado forneceram às missões, além dos meios materiais, também um número consistente de sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos, dando vida a uma eficaz cooperação entre comunidades cristãs. Desta cooperação surgiram abundantes frutos apostólicos quer para as jovens Igrejas em terras de missão, quer para as realidades eclesiais de onde provinham os missionários. Perante o progredir da cultura secularizada, que por vezes parece invadir cada vez mais as sociedades ocidentais, considerando além disso a crise da família, a diminuição das vocações e o progressivo envelhecimento do clero, estas Igrejas correm o risco de se fecharem em si mesmas, de olhar com pouca esperança para o futuro e de diminuir o seu esforço missionário. Mas é precisamente este o momento de se abrir com confiança à Providência de Deus, que jamais abandona o seu povo e que, com o poder do Espírito Santo, o guia para o cumprimento do seu desígnio eterno de salvação.
A esta missão universal a Igreja não se pode subtrair; ela constitui para a Igreja uma força constrangedora. Tendo Cristo confiado em primeiro lugar a Pedro e aos Apóstolos o mandato missionário, ela compete hoje antes de tudo ao Sucessor de Pedro, que a Providência divina escolheu como fundamento visível da unidade da Igreja, e aos Bispos directamente responsáveis da evangelização quer como membros do Colégio episcopal, quer como Pastores das Igrejas particulares (cf. Redemptoris missio, 63). Portanto, dirijo-me aos Pastores de todas as Igrejas colocados pelo Senhor como guias do seu único rebanho, para que partilhem a preocupação do anúncio e da difusão do Evangelho. Foi precisamente esta preocupação que estimulou, há cinquenta anos, o Servo de Deus Pio XII a tornar a cooperação missionária mais correspondente às exigências dos tempos. Especialmente perante as perspectivas da evangelização ele pediu às comunidades de antiga evangelização que enviassem sacerdotes em apoio das Igrejas de recente formação. Deu assim vida a um novo "sujeito missionário" que, desde as primeiras palavras da Encíclica, tirou precisamente o nome de "Fidei donum". Em relação a isto escreveu: "Considerando por um lado as multidões sem conta de filhos nossos que, sobretudo nos Países de antiga tradição cristã, participam do bem da fé, e por outro a multidão ainda mais numerosa dos que ainda aguardam a mensagem da salvação, sentimos o ardente desejo de vos exortar, Veneráveis Irmãos, a amparar com o vosso zelo a causa santa da expansão da Igreja no mundo". E acrescentou: "Queira Deus que após o nosso apelo o espírito missionário penetre mais profundamente no coração de todos os sacerdotes e, através do seu ministério, inflame todos os fiéis" (AAS XLIX 1957, 226).
Demos graças ao Senhor pelos frutos abundantes obtidos por esta cooperação missionária em África e noutras regiões da terra. Multidões de sacerdotes, depois de terem deixado as comunidades de origem, dedicaram as suas energias apostólicas ao serviço de comunidades acabadas de surgir, em zonas de pobreza e em vias de desenvolvimento. Entre eles encontram-se não poucos mártires que, ao testemunho da palavra e à dedicação apostólica, uniram o sacrifício da vida. Também não podemos esquecer os numerosos religiosos, religiosas e leigos voluntários que, juntamente com os presbíteros, se prodigalizaram para difundir o Evangelho até aos extremos confins do mundo. O Dia Missionário Mundial seja ocasião para recordar na oração estes nossos irmãos e irmãs na fé e quantos continuam a prodigalizar-se no vasto campo missionário. Peçamos a Deus que o seu exemplo suscite em toda a parte novas vocações e uma renovada consciência missionária no povo cristão. De facto, cada comunidade cristã nasce missionária, e é precisamente com base na coragem de evangelizar que se mede o amor dos crentes para com o Senhor. Poderíamos dizer que, para cada um dos fiéis, não se trata simplesmente de colaborar na actividade de evangelização, mas de se sentir eles mesmos protagonistas e co-responsáveis da missão da Igreja. Esta co-responsabilidade exige que cresça a comunhão entre as comunidades e se incremente a ajuda recíproca no que diz respeito quer ao pessoal (sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos voluntários) quer ao uso dos meios hoje necessários para evangelizar.
"A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos diz o Senhor . Pedi, portanto, ao dono da messe para que mande trabalhadores para a sua messe" (Lc 10, 2).
Queridos irmãos e irmãs, renovo também eu este convite sempre muito actual. Propague-se em todas as comunidades a coral invocação ao "Pai nosso que está no céu", para que venha o seu reino à terra. Faço apelo sobretudo às crianças e aos jovens, sempre prontos para generosos impulsos missionários. Dirijo-me aos doentes e aos sofredores, recordando o valor da sua misteriosa e indispensável colaboração na obra da salvação. Peço às pessoas consagradas e especialmente aos mosteiros de clausura que intensifiquem a sua oração pelas missões. Graças ao compromisso de cada crente, alargue-se em toda a Igreja a rede espiritual da oração em favor da evangelização. A Virgem Maria, que acompanhou com solicitude materna o caminho da Igreja nascente, guie os nossos passos também nesta nossa época e nos obtenha um novo Pentecostes de amor. Em particular, torne-nos conscientes de que todos somos missionários, isto é, enviados pelo Senhor a ser suas testemunhas em todos os momentos da nossa existência. Aos sacerdotes "Fidei donum", aos religiosos, às religiosas, aos leigos voluntários comprometidos nas fronteiras da evangelização, assim como a quantos de vários modos se dedicam ao anúncio do Evangelho garanto uma recordação na minha oração, e concedo com afecto a todos a Bênção Apostólica.
Papa Bento XVI

sábado, outubro 13, 2007

Domingo XXVIII - Aprender a dar graças a Deus

A vedadadeira religião: saber dar graças a Deus
O estrangeiro agradecido (Lc 17, 11-19)
De novo a referência à viagem (17, 11; 18, 31; 19, 28).
Encontra leprosos no descampado, porque não podiam aproximar-se das povoações. Apenas um dos dez curados, precisamente um samaritano, agradece o dom da cura. Os estrangeiros estão mais preparados para seguir Jesus. Não é a primeira vez que Lucas refere este tema; veja-se por exemplo:
- o publicano é justificado e não o fariseu (18, 9-14);
- a pecadora em contraste com Simão, o fariseu (7, 36-50);
- a fé do centurião superior à de Israel (7, 9);
- parábola do samaritano (10, 25-37);
- os publicanos aceitam o baptismo de João, rejeitado pelos fariseus (7, 29-30);
- os primeiros convidados rejeitam o banquete (14, 23);
- os judeus que ficam fora do Reino, ao qual acedem os que vêm do oriente, do ocidente, do norte e do sul (13, 28-29).
A este samaritano, além de o curar, diz-lhe: “A tua fé te salvou”. Jesus apaga toda a distinção entre pessoas puras e impuras, entre judeus e não judeus. A salvação é universal. Pede-se-nos ter olhos limpos para dar graças pela vida.

sábado, outubro 06, 2007

Domingo XXVII – “Senhor, aumenta a nossa fé”

"A fé como dom e graça"
O Evangelho deste Domingo é um conjunto literário composto de duas partes: 1) o pedido dos apóstolos para que Jesus lhes aumente a fé e a comparação com o grão de mostarda; 2) o bom servidor.
A primeira coisa que devemos ter em conta é que a fé não é uma experiência que se possa medir em quantidade, mas sim em qualidade. A fé é o mistério pelo qual confiamos em Deus como Pai, e esta é a qualidade da fé: colocarmos a nossa vida nas suas mãos porque a sua palavra, revelada em Jesus e no seu Evangelho, enche o coração. Por isso, compara-se a fé com o grão de mostarda, muito pequeno, porque nessa pequenez há muita qualidade na qual se encerra, sem dúvida, o confiar (fiar-se) verdadeiramente em Deus. A fé não é ilógica, ou cega, é uma opção baseada na confiança. É como aquele que ama: muitas vezes não sabe explicar porque ama aquela pessoa concreta, mas existe uma razão secreta que nos leva a amar a outra pessoa, a acreditar nela.
A fé move montanhas e a comparação de que, pela fé, uma amoreira se pode plantar no mar, faz-nos pensar. É um símbolo do povo de Israel porque a amoreira é uma árvore que se fosse plantada no mar apodreceria. Assim como é impossível uma amoreira plantada no mar dar fruto, também uma religião sem fé não leva a lado nenhum, seria como uma religião vazia, uma religião sem fé.
A parábola do bom servidor é para Jesus nos ensinar que a vida cristã não pode ter como modelo o desejo de sermos recompensados por aquilo que fazemos. Não podemos servir a Deus e seguir Jesus por aquilo que possamos conseguir, mas na certeza de que o que possuímos é fruto da graça de Deus. Quando seguimos Jesus na fé, não vivemos para ter recompensas, mas sim em fazer o que devemos fazer e nisso somos felizes. Nas nossas relações com Deus não vale o do ut des (dou para receber), mas um abrirmo-nos à graça de Deus com o que somos e, por esta razão, somos convidados a sentar-nos à sua mesa, o que não acontece nas relações sociais deste nosso mundo de classes.

sábado, setembro 29, 2007

Domingo XXVI - A justiça tem que ver com a nossa felicidade

Segunda parábola: o rico e o pobre (Lc 16, 19-31)
Construamos o céu como Deus quer e não o inferno
O rico goza as suas riquezas. O mendigo está deitado à sua porta. Morrem os dois. Nenhuma palavra nos leva a pensar que o rico possuía ilicitamente os seus bens. Nenhuma palavra de desprezo pelo pobre. O grande pecado do rico consiste em ignorar que à porta da sua casa há um homem que precisa dele.
A Palavra de Deus, manifestada em Moisés e nos profetas, tem força suficiente para nos levar à conversão. Se não a escutamos, de nada serve que Deus actue de modo extraordinário enviando-nos uma mensagem por meio de um morto. Esta última frase, que a parábola coloca na boca de Abraão, recorda-nos que quando Jesus ressuscitou Lázaro, os judeus não só mudaram de atitude, mas decidiram matar Jesus (Jo 11, 53).
Lucas acrescenta umas recomendações (17, 1-10) que já conhecíamos por Marcos e Mateus: evitar o escândalo, crescer na fé, vigilância constante.

Nos últimos domingos descobrimos alguns ensinamentos que nos podem ajudar a fazer uma síntese sobre o modo como utilizamos os bens materiais:
a) “Salvar-se” é percorrer com Jesus o caminho que conduz ao banquete do reino. A porta de entrada é estreita e fechar-se-á num momento concreto. Temos de nos esforçar por entrar.
b) Convidados para o banquete do reino, exige-se o desprendimento total: nem ambições, nem afã de conseguir favores.
c) Jesus veio procurar os pecadores. A todos oferece o seu perdão. Alegra-se quando o pecador se converte.
d) Razão fundamental pela qual se exige pobreza ao discípulo: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.

sexta-feira, setembro 21, 2007

Domingo XXV - Ou Deus ou o dinheiro

Neste Domingo XXV e no próximo iremos meditar duas parábolas cujo tema é a opção que temos de fazer, se queremos ser discípulos de Jesus, entre Deus e o dinheiro. Neste Domingo vamos meditar a primeira parábola: a do administrador injusto (16, 1-15).
Uma parábola que a muitos serviu de escândalo. Como é possível que se felicite o administrador injusto? O objecto directo de louvor é a sua “esperteza”. Com o dinheiro, que não lhe pertence mas que está nas suas mãos, soube arranjar amigos para o momento da necessidade. Imitando a sua esperteza, o discípulo de Jesus terá de usar o dinheiro de modo que lhe permita a entrada no Reino eterno. O valor do dinheiro é irrelevante em comparação com o valor do reino. Quem não se mostre fiel na administração do pequeno não merece que se lhe confie o grande tesouro.
É possível que, perdidos em raciocínios por interpretar esta parábola, nos escape o seu ensinamento primeiro: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. O afã do dinheiro apodera-se do coração, convertendo-o num “deus” sem possibilidade já de servir ao “Deus” verdadeiro. S. Paulo irá comentar que a cobiça é uma idolatria (Ef 5, 5; Col 3, 5).
Os fariseus não tinham nenhum inconveniente em unir a sua espiritualidade ao desejo do dinheiro. Sendo amigos do dinheiro, troçam agora de Jesus como quem não entendeu o sentido da vida. Jesus manifesta abertamente que essa atitude “repugna a Deus”.

sábado, setembro 15, 2007

XXIV Domingo - A alegria do perdão

A alegria do perdão (Lc 15, 1-32)
Se quiséssemos descobrir algumas das características breves e significativas de como é o Deus de que nos fala Jesus, bastaria ler este capítulo 15 de Lucas.
O cap. 15 consta de um preâmbulo e de três parábolas. A primeira - a da ovelha perdida - é já conhecida de Mateus (18, 12-14); aqui está num contexto diferente, para apoiar um ensinamento diferente. Acrescenta-se-lhe uma outra parábola gémea que seja mais facilmente entendida pelas mulheres por estar tomada da sua vida. Encerra-se esta trilogia com a belíssima parábola que põe em contraste os homens entre si e os homens com Deus, para que no meio das sombras brilhe com todo o seu esplendor o coração do Pai. À palavra antepõe Jesus o testemunho da sua vida: acolhe os pecadores e descrentes e senta-se com eles à mesa. Com obras e palavras mostra-se como é Deus que procura o pecador, convida-o à penitência e alegra-se com a sua conversão.
Nas três parábolas encontramos um final semelhante: necessidade de partilhar a alegria, porque se encontrou o que estava perdido. Facilmente entendem e experimentam esta alegria o pastor, a mulher e o pai; mas para aqueles que não são protagonistas no encontro do que estava perdido, sentem-se alheios a esta alegria. Nos três casos se torna imprescindível o convite: “Alegrai-vos comigo”, “tinha de fazer uma festa e alegrar-me”. Poderíamos inclusive descobrir uma certa graduação nesta alegria se temos em conta que o que se tinha perdido se encontrou é: uma ovelha entre cem, uma moeda entre dez e um filho entre dois.Nos três casos é Deus - o pastor, a mulher, o pai - o que toma a iniciativa de ir ao encontro. Uma diferença importante se manifesta: perante a falta de responsabilidade da ovelha e da moeda, aparece o exercício da liberdade no filho. O pai respeita as decisões do filho, o que supõe para ele estar com o coração a sangrar à espera que regresse. O pai, que o espera, acolhe-o e abraça-o. A sua magnanimidade está em contraste com o coração do filho mais velho: vivendo sempre dentro da mais estrita legalidade - espírito farisaico - não é capaz de se alegrar com o regresso do irmão. Acreditando viver como filho, converteu-se em estranho. O pai, como Jesus na sua actuação contínua, mesmo por cima das leis, move-se no amor.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Domingo XXIII – A radicalidade do Reino

A radicalidade do Reino
Ser discípulo de Jesus significa um valor absoluto como alternativa a tudo o que é projecto deste mundo, mesmo familiar. É verdade que «se alguém não me tem mais amor que ao seu pai…» não pode ser um verdadeiro discípulo de Jesus porque prefere os interesses familiares, sociais… aos do próprio Jesus e do seu reino. As famílias transmitem amor, mas, às vezes, transmitem outros valores, alguns mesmo negativos como o ódio (de umas famílias contra outras) e outros que um discípulo de Jesus não pode assumir nem respeitar. É uma ruptura o que se propõe. Este é o sentido do levar a cruz para sermos seus discípulos. Por isso, o discípulo, como o homem que constrói uma torre, ou o rei que vai declarar guerra a outro rei, deve clarificar o que significa ser discípulo e avaliar na sua vida o que pretende com o compromisso pessoal de seguir Jesus. Jesus propõe uma nova forma de vida, de sentimentos, de preferências, que às vezes parecem um escândalo aos olhos do mundo, mas este é o verdadeiro discípulo de Jesus e a radicalidade do seu Evangelho. Não é ódio que Jesus pede aos seus discípulos, mas sim amor, mesmo aos inimigos.S. Lucas tira algumas conclusões do v.33 «O que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo»:
1.ª Jesus não quer que se ame a pobreza em si mesma, mas sim que se ponha tudo em comum para que não haja pobres entre os cristãos (Act 4, 34);
2.ª A razão pela qual devemos renunciar aos bens é para que não haja pobres e se realize a justiça no mundo;
3.ª O mundo é injusto por causa dos que amam as riquezas e o poder: em muitos casos estes são os valores que a própria família transmite aos seus filhos;
4.ª Procurar a segurança nos bens deste mundo é colocar o coração naquilo que nos afasta de Deus;
5.ª A luta contra a injustiça, a guerra, o mercantilismo, a globalização sem valores éticos… passa por uma verdadeira alternativa de vida segundo o Evangelho. Se o não fizermos, mesmo à custa de não sermos compreendidos pelos «nossos», perdemos a nossa identidade como seguidores de Jesus e do seu Evangelho.

sexta-feira, agosto 31, 2007

XXII Domingo - Convidados para o banquete do Reino (Lc 14, 1.7-24)

Convidados para o banquete do Reino
Convidado para um banquete, Jesus aproveita a ocasião para oferecer duas séries de conselhos:
- não ambicionar os primeiros lugares (14, 8-11);
- convidar aqueles que não têm meios para corresponder com outro favor (14, 12-14).
Esta refeição é símbolo do banquete do reino como bem o expressa um dos comensais: “Feliz o que comer no banquete do Reino de Deus” (14, 15). O desprendimento total, no qual tanto insiste Lucas, exige também o desprendimento de ambições, do afã de ocupar os primeiros lugares, de converter os favores em fonte de benefícios. O Reino chama-nos ao amor e exclui o negócio: fazer bem sem esperar recompensa.
Não é decisão nossa a construção do reino de Deus, mas resposta à iniciativa de Deus que nos convoca. A preocupação pelos bens materiais congela-nos a vontade. Mas os planos de Deus têm de se cumprir. O Reino, desprezado pelos primeiros convidados, oferece-se generosamente a outros, principalmente aos pobres, aos cegos, coxos; isto é, a todos os que pela sua pobreza ou pelas suas taras físicas se viam excluídos do festim. Estes, porque nada têm, sentem-se mais livres para aceitar o convite.
Terminado o banquete, de novo no caminho e acompanhado por uma grande multidão, continua a sua catequese sobre a necessidade do desprendimento absoluto para entrar no Reino (14, 25-35).

sexta-feira, agosto 24, 2007

Domingo XXI - A porta estreita

A porta estreita (Lc 13, 22-30)
Lucas, quando coloca na boca do homem a pergunta “Senhor, são poucos os que se salvam?”, não pensa numa salvação no mais além, mas numa salvação já presente, que se realiza na história, e que consiste na aceitação e seguimento de Cristo. Lucas não fala tanto de “salvação” quanto de “história de salvação”.
Os textos neo-testamentários referentes ao tema da salvação mostram-nos uma frequente e curiosa associação entre “salvação” e “caminho”. Principalmente no Evangelho de Lucas e nos Actos dos apóstolos. Não é pura coincidência. Este “caminhar” em direcção a Jesus é integrar-se na história da salvação.
Não só se relaciona materialmente a “salvação” com o “caminho”, mas a salvação exige que uma pessoa se ponha a caminho. Mais ainda: O próprio “acontecimento cristão” recebe o nome de “caminho”, “caminho de vida”,. “caminho de salvação”. No livro dos Actos dos Apóstolos é frequente esta designação. Nos Actos e nos escritos paulinos há uma certa identidade entre o “caminho” e o mesmo Cristo ou a Igreja. Podemos comparar Actos 24, 4 com 9, 2 onde se declara que Paulo perseguia “o caminho” ou a “alguns deste caminho”, com Gal 1, 3 onde o mesmo Paulo se apresenta como perseguidor da Igreja de Deus, ou como querendo destruir a fé. Em Act 9, 5 apresenta-se o próprio Cristo como “Eu sou Jesus a quem tu persegues”.
A experiência fundamental de salvação de Israel, paradigma de toda a salvação, é sem dúvida alguma o Êxodo, que passa pelo longo caminho do Deserto. Para o povo é uma experiência do que significa caminhar com o seu Deus, até entrar na Aliança.
Não é, pois, falta de sentido que Lucas enquadre esta pergunta sobre a salvação precisamente no caminho de Jesus para Jerusalém. “Salvar-se” significará “pôr-se em caminho”, de modo que se evite a reprovação mediante a aceitação de Cristo.
A pergunta que Lucas põe na boca do ouvinte anónimo supõe uma preocupação, não pelo número dos que se salvam na outra vida, o qual estaria aqui totalmente fora de contexto, mas uma preocupação para aqueles que vão ser capazes de aceitar e seguir a Cristo, uma vez que se observa uma recusa quase universal por parte principalmente dos responsáveis do povo. Este seguimento supõe acompanhá-lo no caminho a Jerusalém.
Jesus responde à pergunta com um chamamento ao esforço: “Esforçai-vos por...”, que quer significar: com João começou a pregar-se o Reino de Deus e este Reino tem as suas exigências. A preparação foi longa; a Lei e os Profetas anunciaram a sua vinda. Agora encontramo-nos já na plenitude dos tempos; o reino de Deus está no meio de nós, e não temos outro remédio senão nos violentarmos para o alcançar.
Este esforço vem simbolizado pela “porta estreita”. Porta e caminho são duas expressões frequentes para exprimir valores morais. Não se diz a onde conduz esta porta, mas também não se diz que depois se fechará; supõe-se que à sala do banquete, embora não se diga explicitamente o “banquete do reino de Deus” até ao v 29; mas a ideia está presente desde o princípio.
Podemos afirmar que a sala do banquete é o símbolo do Reino de Deus. A porta estreita que é necessário passar, conduz ao reino. Segundo o texto, os comensais já começaram a entrar. O dono está à espera, sentado, esperando o momento para se levantar e fechar a porta. Com as suas parábolas e atitudes, com as suas comidas com publicanos e pecadores, Jesus mostra de facto a presença de Deus. O Reino identifica-se, de algum modo, com a sua pessoa. Uma vez fechada a porta de acesso, é impossível a entrada na sala do banquete. Os de fora começam a bater. Se a salvação é incorporação ao Reino existente aqui e agora, esta é a falta dos que ficaram de fora da porta. Escutaram a pregação de Jesus nas ruas, estiveram com Ele sentados à mesa, mas não aceitaram o Reino que Ele anuncia e torna já presente na sua própria pessoa.

sábado, agosto 18, 2007

XX Domingo: O fogo do amor que transforma o mundo

O evangelho de hoje (Lc 12,49-53) está em relação com o tema da radicalidade que se exige a todo aquele que quer ser discípulo de Jesus. As contradições, tão próprias da literatura semita, são paz-guerra e amor-ódio. Jesus profetiza dizendo que vem trazer o fogo à terra: temos de travar um combate e devemos participar nessa guerra. Jesus fala servindo-se de metáforas, imagens e comparações compreensíveis para a sua época. Não podemos fazer uma interpretação literal dos textos porque de outro modo não encontraríamos sentido para «se alguém quiser ser meu discípulo e não odiar o seu pai, mãe…» (Lc 14, 26).Contudo, o que Jesus quer pedir aos seus discípulos continua válido para os homens e mulheres do século XXI: temos de amar e não odiar. Perante os valores deste mundo o Evangelho continua a ser um sinal de contradição. A guerra tem de ser esta: perante a injustiça e a falta de amor, o continuar a amar é que constitui o combate que temos de travar. Os «nossos» (familiares, bens…) não são mais nossos quando vivemos a radicalidade do amor e isso traz o fogo à terra. Aos «nossos» amamo-los, mas sem renunciar ao que Deus deseja de nós. E se os nossos não nos aceitam nesta guerra de amor, a partir do Evangelho e com o Evangelho, continuarão a ser «nossos», mas não faremos o que eles querem. Esta foi a experiência de Jesus de Nazaré.

sábado, julho 28, 2007

Domingo XVII do Tempo Comum

O Evangelho de S. Lucas apresenta, neste domingo, os seguintes elementos sobre a oração cristã:

. Jesus, homem de oração;
. O Pai-Nosso, modelo de oração;
. Insistência na oração;
. Confiança de alcançar o que se pede.

A diferença entre a oração dos pagãos e a oração dos cristãos é a seguinte:

- Os pagãos sentem-se escravos e mendigos diante de um Deus que quer ser amado e servido. A oração trata de fazer mudar Deus, de o enternecer, de o comover.

- Os cristãos são e sentem-se filhos de um Deus que ama e é servidor. Não querem fazer mudar a Deus, mas sentem-se interpelados para a própria conversão.

- Os pagãos aproximam-se e entram em contacto com Deus que não dá conta de nada: temos de o informar, de lhe recordar coisas... até que se deixe guiar pelos que rezam e faça o que lhe pedem.

- Para os cristãos, é Deus quem nos fala, é sua a iniciativa na nossa oração. Deus conhece-nos a todos e a cada um e não se esquece de ninguém nem de nada. Os cristãos devem estar atentos para escutar a Deus que nos fala, para ouvir o que não queríamos ouvir ou não tínhamos dado ocasião de nos dizer.

- Os pagãos pedem a Deus com a dúvida de que conceda o que lhe pedem. O seu Deus manda doenças e morte. É um Deus omnipotente em força e poder.

-Os cristãos sabemos que Deus nos escuta e quer dar-nos mais do que lhe pedimos. Ele sofreu e morreu por nós. É um Deus omnipotente em amor e serviço.

- Para os pagãos, a oração de adoração é entregar-se a Deus: perfumá-lo, louvá-lo, gestos exteriores... A oração de petição é como o recurso a um “Deus lotaria” a quem se pedem coisas para ver se há sorte...

- A oração cristã não é pedir coisas a Deus, mas permanecer diante d’Ele o tempo necessário para nos deixarmos encher por Ele. O tempo da oração é o tempo “da encarnação de Deus em nós”, o tempo em que nos deixamos inspirar, o tempo em que nos deixamos transformar à sua imagem. O cristão é uma pessoa que testemunha que Deus lhe falou, que tem vontade de trabalhar como Ele, que lhe comunicou os seus gostos: o da pobreza, a humildade, a justiça, até se libertar dos seus próprios gostos. Orar é deixar-se encher da fonte de paz e amor até que esse desejo se faça acção e realidade em nós.

sábado, julho 21, 2007

XVI Domingo - O amor a Deus

A parábola do bom samaritano, que meditámos no Domingopassado, esclareceu o aspecto do amor ao próximo, que aparece já como resposta à Palavra de Deus. Mas também é necessário falar do amor a Deus. Isto acontece no episódio das irmãs Marta e Maria. Para além do sentido estrito do texto (trabalho de Marta e a escuta de Maria), não podemos fazer uma comparação entre as duas irmãs, de modo que aceitemos uma e desprezemos a outra. De facto, se convidaram Jesus, a cortesia exige as duas coisas: atender pessoalmente na conversação e preparar-lhe a mesa. É a amizade simbolizada na conversação a que dá sentido e valor à mesa.
A intenção do texto é esta: quando se tem a dita de receber Jesus, o escutá-lo tem de ser a primeira preocupação, mesmo por cima de atender às suas necessidades. Situando o episódio neste lugar, Lucas quer mostrar que há algo superior às obras de misericórdia realizadas pelo bom samaritano. Se tomamos o episódio como paradigmático, facilmente podemos concluir que para a implantação do Reino são necessárias a acção e a contemplação, sendo esta a que

quarta-feira, julho 18, 2007

sábado, junho 16, 2007

Domingo XI - Quem é este que até perdoa os pecados?

O perdão à mulher pecadora (Lc 7, 36-50)
Não se dá o nome, de certo por discrição, desta mulher conhecida por todo o povo como pecadora. Não temos nenhum motivo para a identificar como sendo Maria Madalena de quem se fala no cap. 8, 2. Simão, o fariseu, tem o coração endurecido, coisa que não é rara entre os fariseus. Não compreende que uma pecadora se converta sinceramente; não compreende que Jesus se deixe ungir por aquela mulher: “Se este homem fosse profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que lhe está a tocar, porque é uma pecadora”. Jesus mostra um coração cheio de misericórdia acolhendo aquela mulher na qual se dão dois motivos de marginalização: ser pecadora e ser mulher.
Simão não entende que Jesus seja um profeta. Mais que um convidado ao banquete do Reino, é ele que convidou Jesus para o seu próprio banquete. Não cumpre os ritos de cortesia de um oriental. O texto parece insinuar que Jesus não foi convidado com boas intenções. Estão aqui presentes dois mundos: o dos fariseus e o de Jesus. E quem vai julgar estes dois mundos é a própria mulher que vai ser a juíza entre eles. Esta mulher vai restituir a dignidade a este profeta amigo de publicanos e pecadores.
Como sinal contrário está a atitude da mulher. O frasco de perfume, usado noutras ocasiões como provocação de pecado, converte-se agora em expressão de amor arrependido, que mostra por sua vez um perdão já recebido. A parábola que Jesus propõe a Simão esclarece tudo isto. O agradecimento mostra que se recebeu o favor. A mulher chora de agradecimento porque foi perdoada com generosidade. Precede o amor de Deus que perdoa; a seguir vem a resposta acolhedora desse perdão. Já não é lícito considerá-la uma pecadora. Simão endurece-se por negar o perdão.
O fariseu, os puritanos, os que se julgam bons… não sentem necessidade de nada e não podem agradecer o que se lhes faz. A mulher, pelo contrário, sente necessidade de compreensão, de perdão, de misericórdia e, consequentemente, ama muito. Devemos realçar o V. 47: não é o amor da pecadora que provoca o perdão, mas sim o perdão de Jesus que a leva a amar com toda a sua alma e o seu coração.
Jesus reintegra aquela mulher na sociedade que a marginalizou: “A tua fé te salvou. Vai em paz”. Teríamos que acrescentar aqui os três primeiros versículos do cap. 8, notando a atenção que Lucas presta ao grupo de mulheres que seguem Jesus.

sábado, junho 09, 2007

Domingo X - Comentário a Lc 7

OBRAS SÃO AMORES - OS SINAIS TESTEMUNHAM-N’O
Obras são amores e não as boas razões. As obras manifestam poder. As obras mostram, sobretudo, amor. O amor é acolhimento. O amor é perdão.
1. Poderoso em obras
Depois do discurso da planície, no qual Jesus se mostrou “poderoso em palavras”, agora vai manifestar-se “poderoso em obras”.
Lucas apresenta três sinais, intercalando neles a embaixada do Baptista:
- a cura do servo do centurião, na qual se mostra o universalismo da salvação e da fé;
- a ressurreição do filho da viuva de Naim;
- o perdão da pecadora, que manifesta a misericórdia de Jesus.
Os que vão beneficiar destes sinais respondem com uma atitude de fé em Cristo, com o reconhecimento da sua divindade, com um amor desbordante.

A cura do servo do centurião (Lc 7, 1-10)
O primeiro sinal que nos apresenta aqui é a cura do servo do centurião. Mais do que narrar o texto, quase que no-lo deixa adivinhar: “Jesus acompanhou-os”, mas nenhuma acção de Jesus nem nenhuma alusão à cura se descreve. Diz-se, isso sim, que “e, de regresso a casa, os enviados encontraram o servo de perfeita saúde”.
O interesse de Lc está em mostrar que se trata de um pagão, benfeitor do povo porque lhes construiu a sinagoga. Como pagão que é, não se aproxima directamente de Jesus, mas sim por intermediários. A sua atitude de plena confiança merece o louvor de Jesus “Digo-vos: nem em Israel encontrei tão grande fé”.
A fé cristã é fundamentalmente aceitação da pessoa de Cristo, que traz a salvação a todos os homens. Não foi fácil no início do cristianismo aceitar os pagãos (Act 10-11), como também não é fácil para nós abrirmos as comunidades sem mais limitações que a fé em Cristo. A referência à generosidade do centurião em favor dos judeus apresenta-se como uma recomendação perante Jesus. Talvez a intenção de Lucas seja captar a benevolência das comunidades judaicas em favor dos pagãos.

A ressurreição do filho da viuva de Naim (Lc 7, 11-17)
A cura de um doente é superada pela ressurreição de um defunto. É um episódio exclusivo de Lucas. A acção de Jesus apresenta-se fundamentalmente como misericórdia para com a viuva que tinha perdido o único filho. Todo o contexto e especialmente a expressão “entregou-o a sua mãe” recorda o gesto do profeta Elias que devolve a vida ao filho da viuva de Sarepta (1 Re 17, 17-24). Talvez assim se prepare a opinião daqueles que pensavam que Jesus era o Messias (9, 19).
Lc utiliza muitas vezes a palavra “Senhor” na boca de diferentes pessoas que falam com Jesus; é a primeira vez que o evangelista se refere a Jesus com este título, que é o nome com o qual se designa sempre a Deus na versão grega do AT.
A reacção dos presentes - “uma grande multidão acompanhava Jesus” -, não se faz esperar: admirados pelo que vêem proclamam Jesus como um grande profeta; reconhecem que Deus se tornou presente no seu povo; divulgam a notícia por todo o país e por toda a região.
Jesus vê e analisa a realidade: julga e compreende a situação e actua como consequência do que vê: diz uma só palavra à mãe: “Não chores” e uma só palavra ao defunto: “Levanta-te”. Este modo de actuar de Jesus é exemplo para nós: em vez de nos pormos a lamentar a situação, Jesus actua.
Entre este sinal e o seguinte coloca Lc a embaixada que João Baptista envia a partir da prisão (7, 18-23) para saber de Jesus se Ele é o Messias que ele tinha imaginado e que viria com a pá de joeirar o grão e queimar a palha na fogueira que nunca termina. Daí a pergunta: “És Tu, o que está para vir ou temos de esperar outro?” Jesus faz referência ao Messias anunciado pelos profetas e cita, por isso, as palavras de Isaías.

- A fé é fundamentalmente acolher a pessoa de Jesus. Como está a nossa fé enquanto abertura a Deus e serviço aos irmãos?
- Jesus vê a realidade que o rodeia, julga com misericórdia e actua em consequência deste ver e julgar. Somos nós assim na nossa vida de cada dia?

terça-feira, junho 05, 2007

Festa do Corpo de Deus

Algumas reflexões a partir dos textos bíblicos

* Um núcleo original

A Última Ceia de Jesus contém duas notas originais relativamente às refeições tradicionais judaicas: Aos dois gestos típicos da mesa – a fracção do pão e o cálice de bênção – ritos de entrada e de conclusão, respectivamente, de todos os convites judaicos. Jesus afirma que o pão é o Seu corpo e o vinho é o sangue derramado por toda a humanidade.

Os relatos da instituição da Eucaristia parecem ser uma explicitação, um desenvolvimento deste núcleo original. Jesus, perante a Sua morte, faz aos discípulos a promessa de uma nova comunhão. Jesus compreendeu e viveu a Sua morte como um serviço último e supremo à causa de Deus.

* As refeições pós-pascais: Eucaristia e Ressurreição

O encontro com o Ressuscitado tem lugar, habitualmente, em redor de uma mesa, durante uma refeição. Assim sucede com os discípulos de Emaús (Lc 24, 30-31); com os onze no cenáculo, comendo peixe assado (Lc 24, 41-43); em Mc 16, 14 a referência é evidente: «Apareceu aos próprios onze quando estavam à mesa»; na aparição na margem do lago de Tiberíades, em que Jesus prepara e serve aos Seus discípulos uma refeição com pão e peixe (Jo 21). Também segundo Act 1, 4, a última aparição, a da Ascensão, teve lugar «no decurso de uma refeição». Finalmente, Pedro conserva a recordação comovida das experiências com Jesus ressuscitado e fala dela no discurso em casa de Cornélio: «Deus ressuscitou-o ao terceiro dia e permitiu-lhe manifestar-se, não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele depois da sua ressurreição dos mortos» (Act 10, 41).

* A fracção do pão

O gesto de partir o pão é mencionado na pequena cidade de Tróade (cf. Act 20). Paulo, na sua última viagem missionária, reúne-se com os irmãos crentes, no primeiro dia da semana (mais tarde chamado dia do Senhor ou domingo), para partir o pão. A reunião nocturna («havia bastantes lâmpadas na sala de cima onde estávamos reunidos», v. 8) inclui esse gesto ritual, no âmbito de uma longa liturgia da palavra dirigida pessoalmente pelo próprio apóstolo. Paulo explica o significado do gesto de partir o pão no seu célebre texto da Carta aos Coríntios: «O pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque todos participamos desse único pão» (1 Cor 10, 16-17).
Se a Eucaristia como fracção do pão inclui a exigência interna do serviço fraterno, é porque constitui a recordação e a presença do Senhor ressuscitado, cuja vida e morte têm como principal chave de interpretação o serviço (diaconia) e a existência para os outros.

* O lava-pés no Evangelho de S. João

O Evangelho de S. João procura conduzir a comunidade para uma compreensão mais profunda da sua prática sacramental. Não pretende substituir o relato da instituição pelo do lava-pés. Pretende oferecer à comunidade que já celebra a Eucaristia uma doutrina semelhante à de Paulo quando escreve: «Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice anunciais a morte do Senhor até que Ele venha» (1 Cor 11, 26).
No relato de João, o crente é convidado a passar do rito para a pessoa. Ao praticar a Eucaristia, o crente deve fixar o olhar na pessoa de Jesus e na Sua atitude diaconal. Por isso, ao «Fazei isto em minha memória» (Lc 22, 19) corresponde em João «Também vós vos deveis lavar os pés uns aos outros» (Jo 13, 14), que remete para o «Amai-vos uns aos outros» (Jo 13, 34). Assim sendo, a comunidade fiel ao Senhor permanece duplamente ligada à Eucaristia e ao modelo diaconal. Acentua-se, em cada um dos casos, uma das vertentes: celebração ou vida. Mas estão ambas internamente unidas pelo tema comum da entrega, da doação, do serviço radical até à morte.

* A participação na Eucaristia

«Tomai e comei: isto é o meu corpo.»
«Este é o meu sangue para perdão dos pecados.»

As palavras sobre o pão e as palavras sobre o vinho exprimem a oferta da própria pessoa, da própria vida pelos outros; resumem toda a existência de Jesus como doação e entrega ao Pai e aos outros. Jesus chama ao pão simplesmente «meu corpo» («que será entregue por vós») (Lucas e Paulo), e ao vinho contido no cálice «meu sangue»; («sangue da aliança que será derramado por todos» (Marcos e Mateus); «a nova aliança selada com o meu sangue» (Lucas e Paulo).
O fundamento da presença real eucarística encontra-se, no Novo Testamento, em S. Paulo e em S. João. O texto de 1 Cor 11, à luz da catequese eucarística proposta pelo próprio Paulo (1 Cor 10), não dá lugar a dúvidas: «O cálice de bênção que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo?»... «Todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor» (1 Cor 10, 16; 11, 27; cf. 1 Cor 11, 29). Por outro lado, não devemos esquecer-nos de que Paulo, ao exprimir-se dessa maneira, mais não faz do que trazer à memória aquilo que devia ser familiar aos seus leitores. Esta interpretação é, certamente, muito realista: o pão e o vinho eucarísticos não são um puro sinal intencional, mas a própria realidade do corpo e do sangue do Senhor.
O evangelista S. João não é menos realista nos versículos finais do seu discurso sobre o pão da vida: «Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna. Porque a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue uma verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, fica a morar (permanece) em mim e eu nele» (Jo 6, 53-56). Estas linhas foram escritas em finais do século I, para cristãos que não podiam deixar de as aplicar à Eucaristia. Nelas está patente uma interpretação atribuída ao próprio Jesus.

Na Eucaristia, a Igreja alimenta-se do próprio Cristo; assim fica patente, neste sacramento, a permanente fundamentação da Igreja em Cristo: a Igreja exprime, na Eucaristia, a sua própria essência, recebendo-a precisamente do seu Senhor. O corpo do Senhor ressuscitado presente na Eucaristia é o “pão da vida” (Jo 6, 35), portador do dinamismo santificador do Espírito, que transforma interiormente o crente e a comunidade inteira que se alimenta d’Ele. A Eucaristia é a “Páscoa da Igreja” porque, num processo gradual, a vai arrancando do reino do pecado e da morte e a vai inserindo na comunhão de vida com o Senhor ressuscitado.


Domingo da Santíssima Trindade

Reflexão para esta semana

Impulsionada pela força do Espírito Santo, derramado no dia do Pentecostes, a Igreja nascente caminha nas pegadas do Senhor, que a precede no seu caminho para o Pai, horizonte e meta de tudo quanto existe. A fé trinitária é afirmada em todas as passagens dos Actos dos Apóstolos.

É no grupo das cartas paulinas que encontramos mais referências à fé trinitária dos primeiros seguidores de Jesus. Vejamos alguns dos textos mais importantes que referem a fé na Trindade das comunidades fundadas por S. Paulo e qual o seu significado para a nossa fé no Deus Uno e Trino.

«Paulo, Silvano e Timóteo à Igreja de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo, que está em Tessalónica. A vós, graça e paz. Damos continuamente graças a Deus por todos vós, recordando-vos sem cessar nas nossas orações; a vosso respeito, guardamos na memória a actividade da fé, o esforço da caridade e a constância da esperança, que vêm de Nosso Senhor Jesus Cristo, diante de Deus nosso Pai, conhecendo bem, irmãos amados de Deus, a vossa eleição, pois o nosso Evangelho não se apresentou a vós apenas como uma simples palavra, mas também com poder e com muito êxito pela acção do Espírito Santo; vós sabeis como estivemos entre vós para vosso bem» (1Ts 1, 1-5).

Este é o texto mais antigo do Novo Testamento, podendo ser datado do ano 50, menos de duas décadas após a morte de Jesus. A fé trinitária está presente nesta carta e podemos assegurar que os primeiros cristãos tinham bem presente, logo desde o início, a singular relação entre o Pai Deus, o seu Filho Jesus Cristo e o Espírito Santo, embora não chegassem a formular o dogma trinitário como aconteceu séculos mais tarde.
Este antiquíssimo testemunho Paulino remonta aos primeiros tempos da expansão missionária. Já, então, podemos observar que os primeiros cristãos tinham uma forte consciência de que a sua salvação, o seu chamamento a uma nova vida, procedia de Deus Pai, tinha-lhes sido anunciada em nome do seu Filho Jesus Cristo e tinha-se realizado pela força do Espírito Santo.

«Sois filhos bem amados de Deus e procedei com amor, como também Cristo nos amou e se entregou a Deus por nós como oferta e sacrifício de agradável odor» (Ef 5, 1-2).

O que melhor manifesta a mais profunda identidade do Ser de Deus é o amor: Amor pelo qual o Pai, o Filho e o Espírito se unem entre si e com toda a humanidade. Amor pelo qual Cristo se revela como o autêntico e único Filho de Deus e pelo qual vive toda a Sua vida como uma oferta ao Pai, convertendo-se em exemplo para todos o seus seguidores.
O amor, que procede do próprio Ser de Deus e que se transmite aos seus filhos pelo Filho através da acção do Espírito Santo, converte-se em luz para a sua própria vida e para aqueles que os contemplam: agora sois luz no Senhor. Quando vivemos de outro modo, não só faltamos à nossa própria identidade, negando a relação filial que mantemos com Deus, como também causamos tristeza ao Espírito de Deus: «Não ofendais o Espírito Santo de Deus, selo com o qual fostes marcados para o dia da redenção» (Ef 4, 30).

Caríssimos, se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros.
A Deus nunca ninguém o viu; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chegou à perfeição em nós. Damos conta de que permanecemos nele, e Ele em nós, por nos ter feito participar do seu Espírito.
Nós o contemplamos e damos testemunho de que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. Quem confessar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele» (1Jo 4, 7-16).

sexta-feira, maio 25, 2007

Vem, Espírito Santo

Quem é o Espírito Santo?
(Uma definição através das suas funções e atributos)

1. Congrega na mesma fé aqueles a quem o pecado dividiu.
2. Fortalece os corações dos renascidos pela graça de Deus.
3. Renova a face da terra. Purifica, renova, acende e alegra as entranhas do mundo.
4. Infunde o conhecimento de Deus a todos os povos.
5. É quem faz compreender a realidade dos mistérios da salvação e leva ao conhecimento pleno da verdade revelada.
6. Perscruta e ilumina o coração dos homens e restabelece a fé com a notícia feliz do Senhor Ressuscitado.
7. Obras maravilhosas como as da pregação do Evangelho e as da missão salvadora da Igreja.
8. Enche o coração dos fiéis e acende neles o fogo do seu amor.
9. Guia e santifica a Igreja e todos os seus membros através os sacramentos.
10. Rega a terra ressequida, cura o coração doente, lava as manchas, infunde calor de vida no gelo, domina o espírito indomável, guia por sendas direitas, distribui os seus sete dons, salva o que anda perdido e dá o gozo na eternidade.


Quem é o Espírito Santo?
(Uma definição através dos seus dons)

1. Luz: “Vem, Espírito Santo, manda um raio da tua luz sobre cada um de nós”.
2.Dom: “Vem, ó Pai dos pobres, luz profunda nos teus dons, dom nos teus maravilhosos dons”.
3. Consolação: “Não há consolação como a tua, doce hóspede, o meu descanso”.
4. Paz: “Suave trégua na fadiga, brisa nas horas de fogo, paz nas aflições”.
5. Profundidade: Luz sapientíssima, penetra nas almas dos teus fiéis até ao mais profundo e enche-nos com os teus dons”.
6. Sopro: ““Que o vazio existe no homem, que domínio da culpa sem o teu sopro!”
7. Chuva: “Lava o rosto do imundo, rega tu a secura da nossa vida, vem e cura-nos”.
8. Ternura: “Domina tudo o que é rígido, encaminha o extraviado”.
9. Recompensa: “Dá ao esforço o mérito, salva o que procura a salvação”.
10. Alegria: “Dá-nos o teu gozo eterno e uma alegria que seja contagiante”.

quinta-feira, maio 24, 2007

Uma definição através das sua obras

Quem é o Espírito Santo?
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1.É quem ajuda a Igreja, quem a conduz e que está sempre com ela.
2. É o Espírito da verdade.
3. É quem guia o povo de Deus, os seus pastores e os seus fiéis, para que possam entender e viver a verdade.
4. É quem nos recorda o que nos ensinou o Senhor. É o dom pascal do Ressuscitado.
5. É o advogado a defender-nos do mal.
6. É quem tudo dá ao povo santo de Deus: a consciência da sua responsabilidade, impulsionando-os ao serviço de Cristo e da nova humanidade, prefigurada na sua Igreja.
7. É quem orienta os crentes na sua confissão de fé em Cristo e quem nos leva a chamar a Deus com o nome de «Pai».
8. É quem renova a Igreja, nos enche de energia, de generosidade, de disponibilidade, de entrega, de dinamismo, de liberdade, de força apostólica. Muda os nossos corações de pedra em corações novos e a nossa tristeza em alegria.
9. É quem nos visita com os seus dons: sabedoria, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus. Torna-nos «dom» para os outros.
10. É o santificador, que prolonga na eternidade a criação do Pai e a redenção do Filho. É quem nos permite desenvolver em nós a vida cristã em plenitude.

terça-feira, maio 22, 2007

Vem, Espírito Santo, e renovai os nossos corações

Vem, Espírito Santo, e renova os nossos corações
Na semana em que nos preparamos para celebrar a solenidade do Espírito Santo, o Pentecostes, apresentamos, ao longo da semana, alguns textos que nos ajudem a amar e a adorar a terceira pessoa da Santíssima Trindade, Deus com o Pai e com Filho.

Quem é o Espírito Santo?
(Uma definição a partir dos textos litúrgicos)

1. Pai amoroso dos pobres.
2. Dom, nos seus maravillosos dons.
3. Luz, que penetra as almas.
4. Fonte das maiores consolações.
5. Doce hóspede da alma.
6. Divina luz que nos enriquece.
7. Descanso no nosso esforço.
8. Trégua no duro trabalho.
9. Brisa nas horas de fogo.
10. Gozo que enxuga as lágrimas e conforto no luto.

É, como proclama a fé da Igreja no Credo, «Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos Profetas»

sábado, maio 19, 2007

Reflexão esta semana da Ascensão

Ascensão do Senhor – Encerramento da Semana da Vida

Para reflectir – A Palavra de Deus

I Leitura (Act 1, 1-11)
Nos Actos dos Apóstolos S. Lucas quer revitalizar as comunidades cristãs cansadas de esperar o regresso do Senhor, que pensavam não tardar. Lembra que ninguém sabe os tempos ou os momentos que o Pai determinou e destaca o testemunho dos Apóstolos a quem Jesus, depois da sua paixão, se apresentou vivo, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando-lhes do reino de Deus. Realça também as últimas instruções aos Apóstolos, nomeadamente sobre a acção do Espírito que faria deles suas testemunhas … até aos confins da terra. A Igreja vive no tempo e os cristãos não devem estar parados de olhos fixos no Céu.
Nos Actos dos Apóstolos a Ascensão dá-se no Cenáculo, à mesa, lugar da Eucaristia e do Mandamento Novo. É agora que vais restaurar o reino de Israel?
Esta pergunta mostra até que ponto os Apóstolos ainda pensavam em termos de poder, prestígio, honras…e Jesus vai dizer-lhes que somente o Baptismo no Espírito os levaria a compreender o que o Senhor dizia sobre o testemunho, o tempo e o espaço da Igreja.
Não se é evangelizado nem se evangeliza sem a luz e a força do Espírito Santo.

II Leitura (Ef 1, 17-23)
S. Paulo, escrevendo aos cristãos de Éfeso, quer que eles compreendam a esperança a que foram chamados. O fundamento está na poderosa força que Deus exerceu em Cristo, que Ele ressuscitou dos mortos e colocou acima de tudo, como cabeça de toda a Igreja que é o seu Corpo, a plenitude daquele que preenche tudo em todos.
É nossa vocação ser Corpo de Cristo e participar da vida que circula d’Ele, cabeça, para nós, seus membros. Esta alegre esperança não pára em nós. Já não é tempo de aguardar expectantes, pois o Espírito Santo já se derramou na Igreja e nos nossos corações. É a hora de os membros do Corpo de Cristo, depositários da plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos, abraçarem a missão e serem testemunhas até aos confins da terra. Cristo, que partiu, chama-nos a ocupar o seu lugar.

Evangelho (Lc 24, 46-53)
O testemunho tem como tema central o seguinte: O Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e havia de ser pregado em seu nome o arrependimento dos pecados. Isto, que escandaliza até os Apóstolos, é a diferença entre a mentalidade dominante e Cristo: sendo de condição divina, não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus, despojou-se a Si mesmo, tomando a condição de servo, tornando-se semelhante aos homens… e humilhou-se a Si mesmo, obediente até à morte e morte de cruz (Fil 2, 6-8). Em plena Ceia, a discussão sobre quem é o maior, contrasta com a atitude do Mestre que está com quem serve (Lc 22, 27). Ele é a verdade do Reino e do Homem Novo: doação até à morte, anúncio do arrependimento e mudança de vida, ressurreição. A humanidade nova encontra-se na alegria da comunhão com Deus, em Cristo, Homem novo. Confirma-se o desígnio inicial do Criador que predestinou a nossa humanidade para ser glorificada.

Que exigências nos coloca, à nossa vida cristã, esta semana da vida?
1.ª Num novo contexto de luta pela vida os Bispos de Portugal apelam a uma acção evangelizadora, atenta a uma cultura não impregnada de valores éticos fundamentais. O Evangelho oferece esses valores.
2.ª Sem a acção do Espírito Santo ninguém é evangelizado nem é evangelizador. Não fiquemos a olhar para o Céu.
3.ª A Ascensão associa a vida humana à glorificação de Cristo ressuscitado. A felicidade humana é preocupação de Deus.
4.ª A glória de Deus é o homem vivo (Santo Ireneu). Jesus veio para servir. A cruz é escândalo, mas sinal decisivo a erguer diante de todos para que renasçam no Espírito.
5.ª A Palavra de Deus e a Eucaristia edificam-nos como Igreja enviada a testemunhar no mundo que Deus não desiste de nos restituir à felicidade da comunhão a que nos chama desde sempre.

domingo, maio 13, 2007

Entrevista do pároco ao Jornal A Guarda

A propósito da celebração dos 25 anos de sacerdócio do P. Moiteiro, pároco das Paróquias da Sé e São Vicente, na Guarda, juntamente com o P. José Dionísio, o Jornal A Guarda, de 3 de Maio, fez-lhe uma entrevista. Entre as várias perguntas feitas para a entrevista publicamos aquelas que mais directamente se relacionam com a vida das Paróquias.

Actualmente, é ou não complicado ser padre?
Reconheço que não é fácil ser padre hoje e isto por duas ordens de razões. A primeira prende-se, por um lado, com a missão de ser bom pastor à imagem de Cristo e, por outro, vermos como a nossa vida está longe de revelar rosto de Deus aos homens do nosso tempo. A segunda diz respeito à nossa sociedade e aos valores que orientam boa parte dos nossos cristãos. Em vez de sermos fermento que vá levedar a massa, deixamo-nos imbuir do relativismo que afecta a todos. Ser padre segundo coração de Cristo é difícil mas é também uma meta para a qual queremos caminhar todos os dias. Não devemos esquecer que quem transforma o coração da humanidade não somos nós mas sim a força do Espírito de Deus que nele está presente.
Haverá alguma razão para que os jovens estejam um pouco afastados de Deus e da Igreja?
Para além das razões apontadas, penso que a maior dificuldade é a falta de modelos que os levem a apostar a vida em causas nobres. Há um divórcio crescente entre a fé e a vida e isto faz que os jovens andem afastados de Deus e da Igreja.
Como analisa o relacionamento das paróquias da cidade com os jovens que frequentam o Instituto Politécnico da Guarda?
O Pe José Dionísio está nomeado, pelo Senhor Bispo, Assistente Espiritual do Instituto Politécnico da Guarda. Neste sentido, tem desenvolvido algumas acções de formação e assegurado, dentro de todas as limitações das outras acções pastorais de que também está responsável, uma permanência efectiva no espaço reservado a este serviço. A permanência é assegurada por ele e pela equipa de jovens que com ele colabora.
Qual o balanço que faz do tempo que está à frente das paróquias da cidade da Guarda (Sé e São Vicente)?
O tempo ainda é pouco e, neste momento, estou a tomar conhecimento da realidade e a tentar descobrir caminhos que abram espaços para a formação cristã dos nossos baptizados. Noto um cristianismo muito baseado na liturgia e no culto e pouco empenho na transformação da realidade em que vivemos. Por aqui temos de fazer esforços na formação dos vários agentes que colaboram na pastoral e dar-lhes a perspectiva de uma eclesiologia de comunhão.
No seu ponto de vista, o património religioso construído, nestas paróquias, está bem preservado?
A maior parte do património religioso está bem conservado e isso deve-se ao esforço da anterior equipa sacerdotal, nomeadamente do Senhor P. Abel. Gostaria de ver a Catedral mais acolhedora para as celebrações, uma vez que o edifício identifica a nossa cidade e é o mais belo monumento de toda a Beira interior. Estamos a fazer esforços nesse sentido sabendo que a colaboração com o IPPAR é indispensável. As dificuldades financeiras deste organismo também não têm ajudado nas nossas pretensões.
No caso concreto da Capela do Mileu, há algum projecto de recuperação?
A Capela é propriedade da Fábrica da Igreja de São Vicente, mas é um monumento classificado e, por esta razão, a consolidação da parede que está junto do cemitério tem de ser feita em colaboração com as várias entidades interessadas. Em Setembro passado, os serviços da Câmara Municipal confirmaram que ainda não há risco imediato, mas que devemos estar atentos à evolução da situação.
E para os azulejos da Igreja de São Vicente?
Sei que o Programa Polis fez uma candidatura junto de uma Fundação com base na lei do mecenato. As coisas não se resolvem com a rapidez que nós desejamos e aguardamos uma resposta para depois actuarmos. Não são só os azulejos que precisam de recuperação, mas sim todo o interior da Igreja necessita obras urgentes.
A zona das Lameirinhas continua sem um lugar próprio de culto. O que é que está a ser feito para alterar esta situação?
Estamos na fase inicial de elaboração de um Projecto para a construção de um Lar de Idosos, num terreno que a Paróquia tem nessa zona. Esse Projecto prevê um lugar de culto que estará à disposição daquela zona da cidade. Aliás, também haverá salas para formação humana e cristã dos habitantes das Lameirinhas.
Que obras pretende realizar nas paróquias da Sé e São Vicente, a nível de culto, a nível de formação e a nível social?
Para além da recuperação do património já assinalado e na continuação do que já vinha de trás, estamos a pensar num espaço de oração e formação em Alfarazes e num Complexo Paroquial para a Povoa do Mileu. Aqui, concretamente, a dificuldade está ao nível do terreno.

6.º Domingo de Páscoa

Para reflectir
6.º Semana de Páscoa
O «espírito» do «Concílio» de Jerusalém (Act 15, 1.22-29)

O Livro dos Actos dos Apóstolos apresenta-nos, na liturgia desta sexta semana da Páscoa, um dos episódios mais importante da vida das primeiras comunidades cristãs: O Concílio de Jerusalém.
A comunidade cristã de Antioquia da Síria tinha enviado Paulo e Barnabé (anos 46-48) na primeira viagem missionária, e o anúncio do Evangelho aos pagãos tinha sido coroado de êxito. Isto iria colocar um desafio à Igreja de Jerusalém onde a maioria dos seus membros era proveniente do judaísmo. Os pagãos tinham ou não de submeter-se à lei de Moisés, isto é, tinham de se circuncidar para serem cristãos? A questão era tão importante que motivou a reunião dos responsáveis da Igreja porque estavam em jogo realidades muito importantes: Onde está o que fez Jesus por cada um de nós? Que valor tem a morte e a ressurreição de Jesus? A salvação está na Lei ou em Jesus?
Após a deliberação dos responsáveis da comunidade cristã, toma-se a decisão que a Lei não é necessária para a salvação. Não se devem obrigar os pagãos a submeter-se à circuncisão, mas sim abrirem-se (aceitarem) a graça de Deus. Esta é a grande luta pela liberdade cristã que começa logo nos inícios da Igreja. Não nos podemos esquecer que Jesus e Paulo viverem submetidos à Lei de Moisés mas, no momento próprio, decidiram abandonar esse caminho. O cristianismo encontrou a sua identidade abandonando a Lei (a Torah judia) e identificando-se com Cristo crucificado e ressuscitado.

O amor deve transformar o mundo (Jo 14, 23-29)
Estamos no discurso de despedida de Jesus com os seus discípulos, na Última Ceia. Jesus diz aos seus discípulos que a sua palavra é a palavra do Pai. Quando Ele não estiver com eles, essa palavra continuará a ser proclamada e a dar vida porque o Espírito Santo, o Espírito do Pai e do Filho, completará tudo aquilo que for necessário à vida da comunidade. Jesus despede-se dos seus num tom cordial de fidelidade (deixa o Espírito que continua a sua missão) e dá-lhes o dom da paz.
Para o quarto Evangelho, o de S. João, o mundo é todo aquele que não ama. Por esta razão, a mensagem do Evangelho é muito simples: Quem ama está a cumprir a vontade de Deus, do Pai. Por isso, quem ama no mundo, mesmo que não seja dos “discípulos” de Jesus, também está a colaborar no processo de transformação deste mundo em Reino de Deus, porque o Espírito está para além de todas as barreiras, povos e, mesmo, religiões. Ninguém pode aprisionar o Espírito e Ele actua no coração daqueles que amam a Deus e os irmãos. O mundo necessita o amor que Jesus propõe para que Deus “seja morada” em nós. Onde há amor, aí existe Deus, e Deus habita nele.

quarta-feira, maio 09, 2007

um lugar de evangelização

Inicia agora um novo lugar de Evangelização. Esperamos que seja aproveitado por muitos!