quinta-feira, outubro 23, 2008

Carta aos Tessalonicenses

A liturgia dominical apresenta-nos a segunda Carta de S. Paulo aos Tessalonicenses. Para uma melhor compreensão desta Carta, apresento uma iniciação à sua leitura.
1. Circunstâncias do diálogo epistolar
Esta primeira carta de S. Paulo foi escrita por volta do ano 50, na Acaia, mais perto de Corinto que de Atenas (Cf. Act 17-18; 1Ts 2,17-3,13). Os crentes de Tessalónica são pagãos convertidos «como vos convertestes dos ídolos a Deus, para servirdes o Deus vivo e verdadeiro» (1 Ts 1,9) e, por causa da sua adesão ao Evangelho, tiveram de pagar um duro preço (1,7; 2,14) e continuam a pagá-lo mesmo depois do apóstolo ter ido embora por causa das perseguições movidas pelos judeus (3,2-3). A fidelidade que mostram a toda a prova, mesmo após a partida dos missionários (Paulo, Timóteo, Silvano), é confirmada por Timóteo quando regressa a Tessalónica (3,6-8). Paulo dá graças a Deus pelos cristãos tessalonicenses que manifestam uma fé activa, um amor comprometido e uma esperança firme. Na sua carta exorta-os a crescer na fé (4,1-2.10, dá-lhes instruções sobre o amor fraterno (4,9) e sobre a iminência do fim dos tempos, na qual já estão suficientemente instruídos (5,1).
Mas há um ponto obscuro: 4,13-18. Paulo dá conta de uma certa ignorância dos tessalonicenses, o que se traduz numa grande tristeza: «Irmãos, não queremos deixar-vos na ignorância a respeito dos que faleceram, para não andardes tristes como os outros, que não têm esperança» (4,13). Necessitam luz sobre o destino último dos irmãos mortos para ficarem confortados (4,18).
No que se refere à análise desta primeira Carta podemos ver as seguintes partes: Início (1,1), o final (5,25-28) e o corpo da Carta que forma um todo compacto. Este corpo está dividido em duas partes: 1,2-3,13 e 4,1-5,24.
Primeira parte
A secção dos capítulos 1-3 caracteriza-se por uma tríplice comunicação “eucarística” (acção de graças) de 1,2; 2,1 e 3,9 que assinala todo o conjunto: 1,2-2,12; 2,13-16; 2,17-3,10. Na primeira parte os remetentes dão graças a Deus pela fé activa, o amor operante e a esperança firme e pela sua eleição divina. Na segunda, a acção de graças é motivada pelo acolhimento da Palavra de Deus (2,13), enquanto na terceira, S. Paulo realça a fidelidade dos tessalonicenses, motivo de grande alegria para ele (3,9) segundo as boas notícias recebidas de Timóteo (3,6). A secção encerra com uma dupla súplica (3,11-13), motivo litúrgico que reaparece no final da segunda parte da Carta (5,23-24), ambas com um forte sentido escatológico.
Segunda parte
Esta segunda parte caracteriza-se pelo «pedimos e exortamos» que mostram a unidade literária de 4,1-8; 4,912; 5,12-13 e 5, 14-22. As outras duas unidades, 4,13-18 e 5,1-11, são introduzidas pelas fórmulas «no que diz respeito aos mortos» e «no que se refere ao tempo e ao momento», concluindo com dupla exortação: «Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras» (4,18) e «Consolai-vos, pois, uns aos outros e edificai-vos reciprocamente, como já o fazeis» (5,11). Paulo quer tirar da ignorância os tessalonicenses e, para isso, fundamenta a sua fé em Jesus morto e ressuscitado (4,14ª), dando a seguir a palavra do Senhor: «De facto, se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus reunirá com Jesus os que em Jesus adormeceram. Eis o que vos dizemos, baseando-nos numa palavra do Senhor: nós, os vivos, os que ficarmos para a vinda do Senhor, não precederemos os que faleceram» (4,14-15). A finalidade é exortá-los a um comportamento concreto: «Ser filhos da luz e filhos do dia» (5,6.8) porque eles não foram destinados à condenação mas sim à salvação (5,9). A razão consiste em estar com Cristo no seu Reino (5,10).

2. A eleição divina dos crentes de Tessalónica

Este é o tema central desta primeira carta aos tessalonicenses: «conhecendo bem, irmãos amados de Deus, a vossa eleição, pois o nosso Evangelho não se apresentou a vós apenas como uma simples palavra, mas também com poder e com muito êxito pela acção do Espírito Santo» (1,4-5).
A originalidade desta eleição divina consiste no facto de que vale para todo o grupo de crentes de Tessalónica, os que foram idólatras (1,9) e pagãos que não conheciam a Deus (4,5) e que no passado estavam privados de esperança (4,13), sentindo-se seguros pela ordem externa (paz e segurança, 5,3), sem futuro e condenados (1,10;5,9). Pois bem, agora que se converteram em eleitos de Deus, adquiriram uma nova identidade espiritual, não pelos seus méritos mas por uma intervenção directa e livre por parte de Deus.
3. A santificação
O conteúdo das exortações paulinas é variado e múltiplo, umas vezes concreto e outras vezes geral: agradar a Deus (4,1) e comportar-se decorosamente aos olhos dos irmãos (4,12); amor recíproco e fraterno (4,9-10), esperar a vinda do Senhor estando vigilantes e sóbrios (5,6-8), isto é, regras práticas de vida comunitária. Mas o motivo que ele mais realça é o da santidade, tal como aparece em 4,3-8. Se a santidade aparece objectivamente especificada no sentido sexual (abster-se da fornicação, unir-se à mulher de modo santo e honroso e não defraudar o irmão nesta matéria), nas duas orações de 3,12-23 e 5,23-24 revela-se uma completa integridade de vida que se manifestará no juízo final de Deus e na parusia de Cristo.
A exortação Paulina à santidade centra-se radicalmente na história da salvação em três tempos: o passado, quando os tessalonicenses foram chamados por Deus a acreditar e a santificarem-se, sendo destinados à salvação; o presente, como filhos da luz aos quais se exige acções consequentes; e o futuro, salvos na parusia de Cristo diante do qual se devem apresentar irrepreensíveis.

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