domingo, fevereiro 17, 2008

II Domingo da Quaresma - Transfiguração

Os primeiros 11 capítulos do livro do Génesis resumem o mistério da humanidade que, pouco a pouco, quis empreender um caminho independente do seu Criador. O capítulo 12, do qual hoje meditamos os primeiros quatro versículos, apresenta Abraão como o «Pai dos crentes», a quem se pede que deixe a sua terra, os laços familiares aos quais está unido porque Deus vai começar algo novo num sítio menos frondoso (vivia na planície entre os dois rios da Mesopotâmia, na Caldeia), onde existia uma cultura antiga e próspera. Depois da aliança estabelecida com Noé, na qual Deus jurou fidelidade a toda a obra da criação (cf. Gn 9), a humanidade continua a praticar o mal.
Deus continua a procurar a comunhão com os homens: a seguir à dispersão de Babel vem a vocação de Abraão, chamado a quebrar com os laços sociais a que estava unido para seguir incondicionalmente os caminhos do Senhor. Ao mandato de Deus, «sai da tua terra…» segue-se a promessa de uma bênção superabundante: em dois versículos aparece cinco vezes, e tal repetição indica os três âmbitos da acção de Deus em favor de Abraão. O primeiro âmbito é a promessa de uma descendência numerosa e de um nome dado por Deus; O segundo âmbito amplia o horizonte a todos os que, em Abraão, se converterão em filhos da Promessa; No Terceiro, o horizonte universaliza-se: Todas as nações da terra entram na história de salvação iniciada em Abraão, o «Pai dos Crentes».
Na Carta aos Hebreus descreve-se, à luz do mistério de Cristo Salvador, o chamamento de Abraão: Partiu para uma terra estranha, sem saber para onde ia, mas Deus nunca falta à sua Promessa e embora peça a nossa resposta Ele nunca falta aos seus compromissos. Babel significa os interesses egoístas de todos os povos e nações, com as suas confusões e orgulhos… porque Deus, um Deus com coração, oferece a Abraão e nele a toda a humanidade, uma vida com sentido. Babilónia é o símbolo de uma humanidade de sangue e lágrimas derramados. Deus, o Deus criador, não quer isso para a humanidade… e Abraão vai iniciar o caminho da fé e da confiança absoluta em Deus. Começa, assim, uma nova maneira de entender a religião como experiência de confiança em Deus criador e salvador. Esta é a chave para interpretarmos a aliança do Deus de Israel com o seu povo: os deuses babilónicos submetiam os homens ,enquanto o Deus de Israel confiava e chamava homens concretos para colaborarem com Ele na salvação da humanidade.
Na segunda leitura S. Paulo recomenda ao seu discípulo Timóteo que leve a cabo a missão que recebeu da parte de Deus: anunciar o Evangelho. Aqui aparece que o anúncio tem de ser feito pelo testemunho, pela força de Deus, pelas obras… O objectivo final é destruir a morte e oferecer-nos a imortalidade por meio do Evangelho. Tudo isto é um bom exemplo do kerigma cristão, aquilo que se deve proclamar ao mundo.
O Evangelho é, como todos os segundos domingos da Quaresma, o da Transfiguração. S. Mateus segue de perto S. Marcos e a Transfiguração é o momento em que Jesus inicia a sua viagem definitiva para Jerusalém. “Seis dias depois” - isto está no contexto dos anúncios da paixão. A medida do tempo (que era a semana para um judeu) ainda não tinha terminado. Os discípulos estão em crise: aceitam Jesus como Messias, mas não o seu messianismo e também não aceitam o seu programa que era a de renunciar ao poder. Elias (simboliza os profetas), Moisés (simboliza a Lei), isto é, todo o Antigo Testamento. A nuvem e a voz que se ouve é sempre sinal da presença de Deus. - “Este é o Meu Filho muito amado. Escutai-O”: O Antigo Testamento passou e agora só temos de prestar atenção a Jesus.
- Pedro queria unir o novo com o velho, mas não sabia o que dizia. Fica com eles apenas Jesus e é esse que temos de escutar e seguir.
- “É bom estarmos aqui” - a paz e o sossego daqueles que experimentam a relação de intimidade com Jesus Cristo.
Os três discípulos – Pedro, Tiago e João – são convidados a descer do monte porque devem percorrer com Jesus o caminho para Jerusalém, isto é, devem anunciar a salvação a todos os homens, porque essa é a vocação de Jesus.
Este texto fala-nos da procura de Deus e da sua vontade na contemplação e na oração. O que contempla o mistério de Deus deve anunciá-lo na vida do dia a dia.

Sem comentários: