Algumas reflexões a partir dos textos bíblicos
* Um núcleo original
A Última Ceia de Jesus contém duas notas originais relativamente às refeições tradicionais judaicas: Aos dois gestos típicos da mesa – a fracção do pão e o cálice de bênção – ritos de entrada e de conclusão, respectivamente, de todos os convites judaicos. Jesus afirma que o pão é o Seu corpo e o vinho é o sangue derramado por toda a humanidade.
Os relatos da instituição da Eucaristia parecem ser uma explicitação, um desenvolvimento deste núcleo original. Jesus, perante a Sua morte, faz aos discípulos a promessa de uma nova comunhão. Jesus compreendeu e viveu a Sua morte como um serviço último e supremo à causa de Deus.
* As refeições pós-pascais: Eucaristia e Ressurreição
O encontro com o Ressuscitado tem lugar, habitualmente, em redor de uma mesa, durante uma refeição. Assim sucede com os discípulos de Emaús (Lc 24, 30-31); com os onze no cenáculo, comendo peixe assado (Lc 24, 41-43); em Mc 16, 14 a referência é evidente: «Apareceu aos próprios onze quando estavam à mesa»; na aparição na margem do lago de Tiberíades, em que Jesus prepara e serve aos Seus discípulos uma refeição com pão e peixe (Jo 21). Também segundo Act 1, 4, a última aparição, a da Ascensão, teve lugar «no decurso de uma refeição». Finalmente, Pedro conserva a recordação comovida das experiências com Jesus ressuscitado e fala dela no discurso em casa de Cornélio: «Deus ressuscitou-o ao terceiro dia e permitiu-lhe manifestar-se, não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele depois da sua ressurreição dos mortos» (Act 10, 41).
* A fracção do pão
O gesto de partir o pão é mencionado na pequena cidade de Tróade (cf. Act 20). Paulo, na sua última viagem missionária, reúne-se com os irmãos crentes, no primeiro dia da semana (mais tarde chamado dia do Senhor ou domingo), para partir o pão. A reunião nocturna («havia bastantes lâmpadas na sala de cima onde estávamos reunidos», v. 8) inclui esse gesto ritual, no âmbito de uma longa liturgia da palavra dirigida pessoalmente pelo próprio apóstolo. Paulo explica o significado do gesto de partir o pão no seu célebre texto da Carta aos Coríntios: «O pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque todos participamos desse único pão» (1 Cor 10, 16-17).
Se a Eucaristia como fracção do pão inclui a exigência interna do serviço fraterno, é porque constitui a recordação e a presença do Senhor ressuscitado, cuja vida e morte têm como principal chave de interpretação o serviço (diaconia) e a existência para os outros.
* O lava-pés no Evangelho de S. João
O Evangelho de S. João procura conduzir a comunidade para uma compreensão mais profunda da sua prática sacramental. Não pretende substituir o relato da instituição pelo do lava-pés. Pretende oferecer à comunidade que já celebra a Eucaristia uma doutrina semelhante à de Paulo quando escreve: «Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice anunciais a morte do Senhor até que Ele venha» (1 Cor 11, 26).
No relato de João, o crente é convidado a passar do rito para a pessoa. Ao praticar a Eucaristia, o crente deve fixar o olhar na pessoa de Jesus e na Sua atitude diaconal. Por isso, ao «Fazei isto em minha memória» (Lc 22, 19) corresponde em João «Também vós vos deveis lavar os pés uns aos outros» (Jo 13, 14), que remete para o «Amai-vos uns aos outros» (Jo 13, 34). Assim sendo, a comunidade fiel ao Senhor permanece duplamente ligada à Eucaristia e ao modelo diaconal. Acentua-se, em cada um dos casos, uma das vertentes: celebração ou vida. Mas estão ambas internamente unidas pelo tema comum da entrega, da doação, do serviço radical até à morte.
* A participação na Eucaristia
«Tomai e comei: isto é o meu corpo.»
«Este é o meu sangue para perdão dos pecados.»
As palavras sobre o pão e as palavras sobre o vinho exprimem a oferta da própria pessoa, da própria vida pelos outros; resumem toda a existência de Jesus como doação e entrega ao Pai e aos outros. Jesus chama ao pão simplesmente «meu corpo» («que será entregue por vós») (Lucas e Paulo), e ao vinho contido no cálice «meu sangue»; («sangue da aliança que será derramado por todos» (Marcos e Mateus); «a nova aliança selada com o meu sangue» (Lucas e Paulo).
O fundamento da presença real eucarística encontra-se, no Novo Testamento, em S. Paulo e em S. João. O texto de 1 Cor 11, à luz da catequese eucarística proposta pelo próprio Paulo (1 Cor 10), não dá lugar a dúvidas: «O cálice de bênção que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo?»... «Todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor» (1 Cor 10, 16; 11, 27; cf. 1 Cor 11, 29). Por outro lado, não devemos esquecer-nos de que Paulo, ao exprimir-se dessa maneira, mais não faz do que trazer à memória aquilo que devia ser familiar aos seus leitores. Esta interpretação é, certamente, muito realista: o pão e o vinho eucarísticos não são um puro sinal intencional, mas a própria realidade do corpo e do sangue do Senhor.
O evangelista S. João não é menos realista nos versículos finais do seu discurso sobre o pão da vida: «Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna. Porque a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue uma verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, fica a morar (permanece) em mim e eu nele» (Jo 6, 53-56). Estas linhas foram escritas em finais do século I, para cristãos que não podiam deixar de as aplicar à Eucaristia. Nelas está patente uma interpretação atribuída ao próprio Jesus.
Na Eucaristia, a Igreja alimenta-se do próprio Cristo; assim fica patente, neste sacramento, a permanente fundamentação da Igreja em Cristo: a Igreja exprime, na Eucaristia, a sua própria essência, recebendo-a precisamente do seu Senhor. O corpo do Senhor ressuscitado presente na Eucaristia é o “pão da vida” (Jo 6, 35), portador do dinamismo santificador do Espírito, que transforma interiormente o crente e a comunidade inteira que se alimenta d’Ele. A Eucaristia é a “Páscoa da Igreja” porque, num processo gradual, a vai arrancando do reino do pecado e da morte e a vai inserindo na comunhão de vida com o Senhor ressuscitado.
* Um núcleo original
A Última Ceia de Jesus contém duas notas originais relativamente às refeições tradicionais judaicas: Aos dois gestos típicos da mesa – a fracção do pão e o cálice de bênção – ritos de entrada e de conclusão, respectivamente, de todos os convites judaicos. Jesus afirma que o pão é o Seu corpo e o vinho é o sangue derramado por toda a humanidade.
Os relatos da instituição da Eucaristia parecem ser uma explicitação, um desenvolvimento deste núcleo original. Jesus, perante a Sua morte, faz aos discípulos a promessa de uma nova comunhão. Jesus compreendeu e viveu a Sua morte como um serviço último e supremo à causa de Deus.
* As refeições pós-pascais: Eucaristia e Ressurreição
O encontro com o Ressuscitado tem lugar, habitualmente, em redor de uma mesa, durante uma refeição. Assim sucede com os discípulos de Emaús (Lc 24, 30-31); com os onze no cenáculo, comendo peixe assado (Lc 24, 41-43); em Mc 16, 14 a referência é evidente: «Apareceu aos próprios onze quando estavam à mesa»; na aparição na margem do lago de Tiberíades, em que Jesus prepara e serve aos Seus discípulos uma refeição com pão e peixe (Jo 21). Também segundo Act 1, 4, a última aparição, a da Ascensão, teve lugar «no decurso de uma refeição». Finalmente, Pedro conserva a recordação comovida das experiências com Jesus ressuscitado e fala dela no discurso em casa de Cornélio: «Deus ressuscitou-o ao terceiro dia e permitiu-lhe manifestar-se, não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele depois da sua ressurreição dos mortos» (Act 10, 41).
* A fracção do pão
O gesto de partir o pão é mencionado na pequena cidade de Tróade (cf. Act 20). Paulo, na sua última viagem missionária, reúne-se com os irmãos crentes, no primeiro dia da semana (mais tarde chamado dia do Senhor ou domingo), para partir o pão. A reunião nocturna («havia bastantes lâmpadas na sala de cima onde estávamos reunidos», v. 8) inclui esse gesto ritual, no âmbito de uma longa liturgia da palavra dirigida pessoalmente pelo próprio apóstolo. Paulo explica o significado do gesto de partir o pão no seu célebre texto da Carta aos Coríntios: «O pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque todos participamos desse único pão» (1 Cor 10, 16-17).
Se a Eucaristia como fracção do pão inclui a exigência interna do serviço fraterno, é porque constitui a recordação e a presença do Senhor ressuscitado, cuja vida e morte têm como principal chave de interpretação o serviço (diaconia) e a existência para os outros.
* O lava-pés no Evangelho de S. João
O Evangelho de S. João procura conduzir a comunidade para uma compreensão mais profunda da sua prática sacramental. Não pretende substituir o relato da instituição pelo do lava-pés. Pretende oferecer à comunidade que já celebra a Eucaristia uma doutrina semelhante à de Paulo quando escreve: «Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice anunciais a morte do Senhor até que Ele venha» (1 Cor 11, 26).
No relato de João, o crente é convidado a passar do rito para a pessoa. Ao praticar a Eucaristia, o crente deve fixar o olhar na pessoa de Jesus e na Sua atitude diaconal. Por isso, ao «Fazei isto em minha memória» (Lc 22, 19) corresponde em João «Também vós vos deveis lavar os pés uns aos outros» (Jo 13, 14), que remete para o «Amai-vos uns aos outros» (Jo 13, 34). Assim sendo, a comunidade fiel ao Senhor permanece duplamente ligada à Eucaristia e ao modelo diaconal. Acentua-se, em cada um dos casos, uma das vertentes: celebração ou vida. Mas estão ambas internamente unidas pelo tema comum da entrega, da doação, do serviço radical até à morte.
* A participação na Eucaristia
«Tomai e comei: isto é o meu corpo.»
«Este é o meu sangue para perdão dos pecados.»
As palavras sobre o pão e as palavras sobre o vinho exprimem a oferta da própria pessoa, da própria vida pelos outros; resumem toda a existência de Jesus como doação e entrega ao Pai e aos outros. Jesus chama ao pão simplesmente «meu corpo» («que será entregue por vós») (Lucas e Paulo), e ao vinho contido no cálice «meu sangue»; («sangue da aliança que será derramado por todos» (Marcos e Mateus); «a nova aliança selada com o meu sangue» (Lucas e Paulo).
O fundamento da presença real eucarística encontra-se, no Novo Testamento, em S. Paulo e em S. João. O texto de 1 Cor 11, à luz da catequese eucarística proposta pelo próprio Paulo (1 Cor 10), não dá lugar a dúvidas: «O cálice de bênção que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo?»... «Todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor» (1 Cor 10, 16; 11, 27; cf. 1 Cor 11, 29). Por outro lado, não devemos esquecer-nos de que Paulo, ao exprimir-se dessa maneira, mais não faz do que trazer à memória aquilo que devia ser familiar aos seus leitores. Esta interpretação é, certamente, muito realista: o pão e o vinho eucarísticos não são um puro sinal intencional, mas a própria realidade do corpo e do sangue do Senhor.
O evangelista S. João não é menos realista nos versículos finais do seu discurso sobre o pão da vida: «Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna. Porque a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue uma verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, fica a morar (permanece) em mim e eu nele» (Jo 6, 53-56). Estas linhas foram escritas em finais do século I, para cristãos que não podiam deixar de as aplicar à Eucaristia. Nelas está patente uma interpretação atribuída ao próprio Jesus.
Na Eucaristia, a Igreja alimenta-se do próprio Cristo; assim fica patente, neste sacramento, a permanente fundamentação da Igreja em Cristo: a Igreja exprime, na Eucaristia, a sua própria essência, recebendo-a precisamente do seu Senhor. O corpo do Senhor ressuscitado presente na Eucaristia é o “pão da vida” (Jo 6, 35), portador do dinamismo santificador do Espírito, que transforma interiormente o crente e a comunidade inteira que se alimenta d’Ele. A Eucaristia é a “Páscoa da Igreja” porque, num processo gradual, a vai arrancando do reino do pecado e da morte e a vai inserindo na comunhão de vida com o Senhor ressuscitado.
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